Início » Acordo entre clubes e decisão fora de campo: Cruzeiro e Atlético dividiram título do Mineiro


Você já pensou em dividir um título com o maior rival? Cruzeiro e Atlético, protagonistas da final do Campeonato Mineiro de 2026, o fizeram. Há muitos anos, em 1956, ano em que as redes sociais estavam longe de ser uma realidade. Nos dias atuais, a repercussão na internet certamente não seria positiva. O No Ataque acessou o arquivo do Estado de Minas para relembrar a caótica edição, que terminou com interferência do extinto Conselho Nacional de Desportos CND).
Cruzeiro e Atlético encerram o primeiro turno do Mineiro empatados em vários aspectos: 15 pontos, sete vitórias, um empate, uma derrota e 10 gols sofridos. A única diferença era na quantidade de tentos marcados. A Raposa havia feito 29 e o Galo, 24.
Para definir a liderança do turno, os rivais se enfrentaram em três partidas. O Cruzeiro venceu a primeira por 2 a 0, mas o Atlético se recuperou e triunfou nas duas restantes, por 1 a 0 e 3 a 2. Dessa forma, classificou-se para a decisão.
No returno, a Raposa fez campanha superior: seis vitórias, dois empates, uma derrota e 14 pontos, que lhe deram a liderança e o direito de jogar a final. O Atlético encerrou a disputa na sexta posição, com nove pontos.
Pela taça, os clubes protagonizaram, mais uma vez, a famosa ‘melhor de três’. A primeira partida, disputada em 23 de maio de 1957, no Independência, terminou com empate por 1 a 1.
“Na primeira partida da série melhor de três, ambos os quadros revelaram bom entrosamento – Tomazinho e Nilo, os marcadores dos dois tentos registrados – Renda de 264 mil cruzeiros”, dizia o resumo da matéria do Estado de Minas.
O primeiro parágrafo tratou o resultado como justo: “Escore de certo modo justo. O quadro barropretano apresentou em verdade um maior volume nas ações, principalmente nos 25 finais do período inicial e logo no começo da fase derradeira. Por outro lado, o Atlético, a exemplo das vezes anteriores, concentrou-se mais na defensiva, procurando sempre atacar de contra-golpe”.

Em 26 de maio, outro empate, dessa vez por 0 a 0. E a participação de Laércio, que se tornaria o protagonista da edição do Mineiro de 1956.
“Continuou em equilíbrio a balança do título: 0 x 0. Empolgante o segundo jogo entre Cruzeiro e Atlético”, disse o Estado de Minas.
O desempenho agradou os redatores: “A rigor, não se poderia exigir mais do clássico… Acreditamos por isso mesmo que o numeroso público presente ao ‘Gigante do Horto’ tenha ficado satisfeito com o espetáculo… Efetivamente, foi um dos melhores confrontos envolvendo os dois tradicionais adversários”.
Mais uma vez, o jornal destacou o ataque celeste e a defesa alvinegra: “O ataque do Cruzeiro melhorou bastante… no entanto, não logrou furar o bloqueio adversário… Muito bom o comportamento da defensiva atleticana”.
No terceiro jogo, em 2 de junho, melhor para o Atlético. O alvinegro venceu por 1 a 0, tornando-se o campeão.
“Consumada a espetacular façanha: Atlético, penta-campeão”, diz a manchete.
No resumo: “Abatido o Cruzeiro por 1 a 0 no jogo da final da série decisiva. Nervosismo e delírio no Independência – Vaduca, aos 40 minutos da etapa final, assinalou o goal – O que foi a sensacional batalha”.
Breve descrição da partida exalta o vencedor: “Despontando em quase todo o rurso da refrega como equipe melhor entrosada, fazendo valer sua característica ‘garra’, acabou o Atlético por conquistar, com méritos inegáveis, o espetacular título de penta-campeão”.
Ao fim da segunda partida, o Cruzeiro contestou a escalação de Laércio, alegando que o lateral não havia cumprido as obrigações militares – essencial na época. Ou seja, havia sido convocado de forma irregular. Ao tribunal de Justiça Desportiva (TJD), a Raposa pediu os pontos do empate, mas, por seis votos a zero, a entidade recusou. O argumento era que o Atlético não poderia ser punido por um erro da Federação Mineira de Futebol (FMF).
O Cruzeiro não desistiu. Depois do terceiro embate, recorreu ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), que deu ao clube estrelado os pontos da referentes ao segundo jogo. Decisão, portanto, empatada.
Os clubes teriam que disputar outra partida. A decisão, evidentemente, desagradou o Atlético. O alvinegro recorreu ao STJD, mas não obteve sucesso. Anos depois, a FMF decidiu pela quarta partida – a ser realizada em 5 de abril de 1959.
Há quem diga que o Galo foi ao Conselho Nacional do Desporto (CND) e usufruiu de uma liminar que o livrou de entrar em campo. Pelo texto retirado do Estado de Minas em 22 de março de 1959, os clubes entraram em um consenso sobre não atuar em função da falta de atletas: “dissolução natural de cada plantão”.
“Cruzeiro e Atlético não têm jogadores para a quarta partida. Comunicada oficialmente à FMF a impossibilidade material da realização do discutido match – resolverá o CND”, diz a chamada.
“Concluíram os dois grêmios após um estudo feito pelas suas direções técnicas, pela impossibilidade de levar a campo suas respectivas equipes em condições de satisfazer as exigências regulamentares”, segue.
O texto explica que Francisco Cortes, dirigente máximo da FMF, “concluiu que o caso era omisso e que fugia a sua alçada, sobretudo pelas circunstâncias que a questão passou a oferecer. Daí por que resolveu o Sr. Cortes encaminhar o assunto à apreciação do Conselho Nacional de Desportos, que deverá proferir a decisão final”.

Pouco depois, a redação indicava o possível desfecho: “A previsão quanto ao desfecho do affaire… é a de que o poder julgador deverá mandar zero ponto a cada clube, podendo, inclusive, proclamar os dois grêmios campeões de 56. As perspectivas de êxito são favoráveis para por termo à velha pendência entre os clubes, abrindo, em consequência, um caminho sincero para a pacificação do futebol mineiro”.
O previsto ocorreu. Depois de algumas reuniões entre diferentes personagens dos clubes e das entidades, Atlético e Cruzeiro foram declarados campeões de 1956. Um encontro, inclusive, ocorreu na sala de reuniões públicas dos Diários Associados. De acordo com texto de 24 de março de 1959, “a persistência do Diário da Tarde não deixou que a questão morresse”.
“Atlético e Cruzeiro, campeões de 1956. Teve solução amistosa o famoso ‘caso Laércio’”, diz chamada do Estado de Minas em 24 de março de 1959.
De acordo com o arquivo do jornal, Atlético e Cruzeiro firmaram acordo, levado ao Rio de Janeiro – para o CND – pelo comissário da FMF. Lá, obteve homologação.
“Atlético e Cruzeiro, alegando impossibilidade material de realizarem a quarta partida, como se viu, comunicaram o fato à FMF. Mas, em se tratando de um caso omissão e ainda pelas circunstâncias que o cercaram, o presidente Cortes não teve outra alternativa senão encaminhar o caso ao CND. Lá, o senhor Paulo Ramos decidiu que a solução natural seria a de proclamar-se campeões os dois quadros. Ao mesmo tempo, enviou uma saudação aos dois grêmios, bem como ao Diário da Tarde, pelo êxito do trabalho e pela solução feliz dada à rumorosa questão”.

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