Início » Conheça o argentino que fez um jogo pelo Atlético e venceu a Copa do Mundo


Reconhecido pela garra dentro das quatro linhas, o zagueiro argentino Nicolás Otamendi não foi o único estrangeiro com passagem pelo Atlético a conquistar uma Copa do Mundo. O feito também foi realizado pelo ex-atacante Roberto Saporiti, compatriota de Otamendi, que venceu o Mundial de 1978 como auxiliar técnico da Seleção Argentina e teve história curiosa no Galo, de apenas um jogo.
Saporiti é name valorizado pelos apaixonados por futebol na Argentina. Revelado na segunda metade da década de 1950 pelo Independiente, também defendeu as camisas de Lanús, Deportivo Español e Platense na terra natal, além de vários outros clubes no exterior.
A carreira como treinador foi consideravelmente mais longa que a de atleta e durou de 1975 a 2014. No currículo, instituições expressivas como Talleres, Rosario Central, Argentinos Juniors, Boca Juniors, Lanús e Defensa y Justicia – além de trabalhos em clubes do México.
Foi com o ex-atacante no comando que o Argentinos Juniors conquistou o primeiro título de expressão de sua história: o Campeonato Argentino de 1984. No ano seguinte, a equipe viria a ganhar a Copa Libertadores pela primeira – e até então única – vez, já sob o comando de José Yudica.
Foi pelo raro conhecimento sobre o futebol europeu que Saporiti se credenciou, em 1978, a integrar a comissão técnica de César Luis Menotti, histórico treinador argentino. Multicampeão pelo Barcelona, da Espanha, anos depois, foi ele quem comandou a geração que levou a primeira taça da Copa do Mundo à Argentina.
Aquele time contava com nomes de peso como o goleiro Ubaldo Fillol, o zagueiro Daniel Passarella, o meio-campista Osvaldo Ardiles e o lendário atacante Mario Kempes. O último deles marcou dois gols na final vencida sobre a Holanda, vencida pela Argentina na prorrogação, por 3 a 1.

Mais de 10 anos antes de conquistar a Copa do Mundo com a Seleção Argentina, ainda enquanto jogador, Saporiti teve passagem-relâmpago pelo Atlético. O atacante havia acabado de deixar o Chile, onde se destacou no Santiago Morning.
Tratado como “craque argentino” pelo tradicional Diário da Tarde em 9 de fevereiro de 1968, Saporiti concedeu entrevista ao jornalista Túlio Berti quando acertou com o Galo. “Se não ficar no Atlético, volto para a Argentina e assino contrato com o Tigre ou então com o Colón, de Santa Fé, que estão interessados no meu passe. Pela combinação que fizemos, devo ficar fazendo testes no Atlético uma semana”, disse o ponta de lança à época.
A negociação teve papel fundamental do empresário argentino Miguel Lentner, conhecido no futebol brasileiro. O Galo pagou todas as despesas de viagem para que Saporiti, que àquela altura tinha 26 anos, viajasse de Buenos Aires a Belo Horizonte.
“Conversando tudo se arruma. Tenho a certeza de que o Atlético entrará em acordo comigo se quiser me contratar”, disse o atleta, que era dono do próprio passe.

Rapidamente, Saporiti se identificou com Buião, ex-atacante que é ídolo do Atlético. “Sempre ando no seu Volks vermelho e, graças a Buião, fiquei conhecendo um pouco de Belo Horizonte, pois ele me leva a vários lugares para passear. Um grande amigo”, frisou ao DT.
Os jornais da época revelaram aos torcedores do Galo que Saporiti se destacou nos primeiros treinamentos pelo clube. O atacante vivia grande fase, já que havia marcado 17 gols em 21 partidas pelo Santiago Morning no trabalho anterior.
“À primeira vista pode parecer que eles não me passavam a bola, mas isto é natural, porque não me conheciam. Eu também não sabia seus nomes, na hora de pedir o passe não podia comunicar-me com eles. Isto é importante e com o tempo é que se adquire”, disse o argentino ao avaliar o primeiro treino no Atlético.
Ainda na primeira entrevista como jogador do clube mineiro, Saporiti fez profecia que se mostraria certeira. Em 1971, três anos depois da declaração a seguir, o Atlético conquistou o Campeonato Brasileiro.
“O Atlético será, dentro de quatro anos, no máximo, o melhor time do Brasil. Digo isto, porque estou acompanhando o trabalho que Doquinha vem realizando na juvenil do Atlético. Fui domingo passado a Capim Branco, vi o juvenil ganhar do time de lá por 8 e 1 e jogadores que, dentro em breve, vão dar muitas alegrias”.
Roberto Saporiti ao Diário da Tarde, em fevereiro de 1968
Em 11 de fevereiro de 1968, o Atlético recebeu o Bangu para um amistoso no Mineirão, em Belo Horizonte. O confronto marcava a despedida de Fleitas Solich como treinador do Galo – o paraguaio assumiria, no dia seguinte, a supervisão de futebol do clube para que Airton Moreira entrasse em seu lugar.
Na matéria da data, o Estado de Minas definiu Saporiti como “argentino bom de bola” e destacou que o atacante ainda seria contratado pelo Atlético depois de agradar nos treinos que fez. O amistoso também marcaria a estreia do meio-campista Oldair, que viria a se transformar em lenda da instituição anos depois. Ele chegava ao Galo depois de passagem pelo Vasco.
Exatos 26.744 torcedores marcaram presença no Gigante da Pampulha para o confronto. Dentro de campo, no entanto, o resultado não foi o esperado pelos alvinegros: 2 a 1 para o Bangu, que apesar de vice-campeão carioca, segundo o DT, era um time de “pouca coisa a mostrar”.
A reportagem destacou as atuações de Humberto, Vaguinho, Beto e Vanderlei, mas criticou a performance técnica do Atlético – ainda que tenha apontado alguma dose de evolução no quesito “vontade”. Saporiti tentou se encontrar com os homens de frente e mostrou disposição, mas acabou deixando o campo machucado ainda no fim do primeiro tempo, sem dar um único chute a gol. “Não foi nem de longe o mesmo dos treinos”, pontuou o texto assinado por Naeme Mansur.

“Saporiti tentou acertar de todas as maneiras, mas no primeiro tempo foi impiedosamente gelado pelos seus companheiros, que não lhe passavam a bola. Ronaldo o substituiu com o esforço de sempre.”
Jornal dos Sports sobre Atlético 1 x 2 Bangu
Já em 14 de fevereiro, o Diário da Tarde destacou que Saporiti não seguiria no Atlético. Àquela altura, Carlos Alberto Naves, presidente do clube mineiro, estava em viagem no Rio de Janeiro, mas assistiu ao jogo contra o Bangu pela televisão e decidiu não permanecer com o argentino.
Em entrevistas, o atacante disse que já tinha convites do Tigre e do Colón. Solich, que havia recomendado a contratação do jogador ao clube mineiro, foi outro a mudar de ideia.
O jornal ainda afirmou que funcionários do departamento de futebol alvinegro – entre elas o diretor João Alves – haviam decidido dar 10 mil dólares em luvas a Saporiti por um contrato de 10 meses. A medida, no entanto, foi prontamente vetada por Carlos Alberto Naves, o “Betinho”.
Ainda de acordo com o Diário da Tarde, Saporiti queria cerca de 20 mil dólares por seu passe. No fim das contas, o Atlético não topou pagar, e o argentino acabou mandado embora naquela mesma semana.
A notícia Conheça o argentino que fez um jogo pelo Atlético e venceu a Copa do Mundo foi publicada primeiro no No Ataque por Lucas Bretas

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