Início » Cruzeiro ‘assombrado’ por lesões de LCA: o que pode explicar? Por que mulheres são mais vítimas?


O Cruzeiro tem de lidar com seis lesões de ligamento cruzado anterior (LCA) apenas nesta temporada. A ‘bruxa’ está solta na Toca da Raposa? Na verdade, não. A expressão reforça estigma de azar ou coincidência. E a medicina, baseada em evidências científicas, recomenda atenção à sobreposição de fatores. É o que propõe a doutora Flávia Magalhães, médica do esporte e nutricionista – com mais de 20 anos de atuação no futebol e passagem pela Seleção Brasileira.
A primeira atleta do Cruzeiro a receber a péssima notícia de que havia rompido o LCA (joelho direito) na atual temporada foi a atacante Millene Fernandes, em meados de abril, durante treinamento na Toca da Raposa. No fim do mesmo mês, a meio-campista Gaby Soares (esquerdo), titular no esquema do técnico Jonas Urias, foi alvo da questão durante partida contra Bragantino.
Em meio, uma ‘chuva’ de notícias ruins. A zagueira Tainara (esquerdo), a lateral-direita Laura (esquerdo) e a atacante Ravenna (direito) romperam o LCA. As defensoras se lesionaram em duelo com o Vitória, enquanto a atacante se machucou durante treinamento no CT do Cruzeiro. Por fim, em junho, enquanto realizava atividades com a Seleção Brasileira, a zagueira Paloma Maciel (direito) recebeu o mesmo diagnóstico.
NA: O que é o LCA?
FM: O ligamento cruzado anterior é uma das estruturas mais críticas do joelho. Ele funciona como o principal estabilizador primário da articulação, impedindo que o osso da perna (tíbia) deslize para frente em relação ao osso da coxa (fêmur), além de controlar os movimentos de rotação e torção (joelho virar).
NA: Por que o tempo de inatividade é tão longo?
FM: Diferente de um músculo ou da pele, o LCA está localizado em um ambiente intra-articular (dentro da cápsula do joelho), banhado pelo líquido sinovial. Esse líquido, embora lubrifique a articulação, impede a formação do coágulo necessário para a cicatrização natural do ligamento. Ou seja, um LCA rompido não se regenera sozinho. A inatividade prolongada ocorre porque o tratamento padrão-ouro para atletas de alto rendimento é a reconstrução cirúrgica (retira-se um enxerto de outro tendão do corpo para criar um novo ligamento). O longo prazo de recuperação se deve ao processo biológico de “ligamentização” – o corpo precisa de meses para transformar esse enxerto tendíneo em um tecido com propriedades de ligamento. Além disso, a atleta precisa de muito tempo para recuperar a massa muscular perdida (especialmente o quadríceps), restaurar o controle neuromuscular (a comunicação rápida entre o cérebro e o joelho) e superar a cinesiofobia (o medo psicológico de realizar o movimento que causou a lesão).
Outro ponto precisa ser esclarecido. De acordo com a doutora Flávia Magalhães, “a literatura médica é categórica: mulheres têm de quatro a oito vezes mais chances de sofrer ruptura de LCA em esportes de mudança de direção do que os homens”. Combinação de fatores intrínsecos do corpo e extrínsecos explicam o índice. A médica os explica a seguir.
“Valgo dinâmico: As mulheres possuem a pelve mais larga, o que altera o ângulo de descida do fêmur até o joelho, o chamado Ângulo Q. Isso favorece o “valgo dinâmico”, que é quando o joelho colapsa para dentro, em formato de ‘X’, ao aterrissar de um salto ou mudar de direção. Esse movimento gera um estresse torcional extremo no LCA”.
“Fossa intercondilar estreita: O espaço ósseo onde o LCA fica alojado costuma ser menor nas mulheres. Em movimentos de torção, o osso pode “beliscar” e cortar o ligamento, o efeito guilhotina”.
“Dominância de quadríceps: Mulheres tendem a ativar muito mais a musculatura anterior da coxa (quadríceps) do que a posterior (isquiotibiais). O quadríceps puxa a tíbia para frente, tensionando o LCA, enquanto os isquiotibiais puxam para trás, protegendo o LCA. Essa fraqueza ou atraso na ativação dos isquiotibiais deixa o joelho desprotegido”.
“Mecânica de aterrissagem: Atletas femininas tendem a aterrissar de saltos com os joelhos e quadris mais estendidos,rígidos, o que diminui a absorção muscular do impacto, transferindo a força diretamente para as articulações e ligamentos”.
“O LCA possui receptores para estrogênio e progesterona. Durante certas fases do ciclo menstrual, especialmente na fase folicular tardia e pré-ovulatória, o pico de estrogênio altera a síntese de colágeno, gerando maior laxidão ligamentar. Um ligamento mais “frouxo” e flexível é menos resistente ao estresse e menos eficiente em estabilizar o joelho”.
“Historicamente, meninas têm menos acesso a trabalhos de base focados em força preventiva e controle motor. Além disso, a maioria das chuteiras é projetada com base na anatomia do pé masculino. O pé feminino possui proporções diferentes (calcanhar mais estreito, arco diferente). O uso de calçados inadequados gera desconforto (como bolhas) e altera a propulsão e a tração rotacional, fazendo com que a trava “agarre” excessivamente no gramado enquanto o corpo da atleta gira, rompendo o joelho”.
Não. Saber que a ruptura de LCA é mais propícia em mulheres não explica o surto de lesões no Cruzeiro, conclusão tida pelo próprio clube e comunicada por Luiza Parreiras, gerente de futebol feminino. A dirigente não vê os diagnósticos como ‘infeliz coincidência’: “É buscar informações de GPS, controle de carga, monitoramento de sono, humor, ciclo menstrual, percentual de gordura, hidratação pré e pós-jogo, todo o trabalho psicológico, de força”.
Na visão da doutora Flávia Magalhães, a declaração de Luiza Parreiras é “cientificamente muito lúcida”. Na sequência, a médica indicou “sobreposição de fatores de risco” e expôs hipóteses que podem explicar a alta incidência em um curto período de tempo.
“Picos na razão de carga aguda:crônica (ACWR): O futebol moderno exige monitoramento rigoroso. Se o volume ou a intensidade de treinos e jogos aumenta abruptamente em relação ao que as atletas estavam cronicamente preparadas, ocorre a fadiga. A fadiga central e periférica destrói o controle neuromuscular. Uma atleta fadigada perde a capacidade de recrutar os músculos protetores do joelho em frações de segundo durante uma mudança de direção”.
“A ‘tempestade perfeita’ (sincronicidade): É estatisticamente plausível que atletas com predisposição anatômica (valgo dinâmico) tenham enfrentado picos de carga de treino (fadiga) justamente nos dias do ciclo menstrual em que seus ligamentos estavam mais laxos”.
“Superfície e chuteiras: Transições frequentes entre gramados (por exemplo: treinar em grama natural pesada e jogar em sintético) com travas agressivas aumentam drasticamente o coeficiente de atrito rotacional, travando o pé no chão”.
Flávia Magalhães frisou que é impossível – e leviano – afirmar quais estímulos culminaram na quantidade de lesões no Cruzeiro sem “auditoria clínica, biomecânica e dados de GPS do clube”. Fato é que a “ocorrência em massa sugere uma falha sistêmica no controle de carga ou fatores ambientais, mas a lesão de LCA é sempre um evento individual e multifatorial”.
A médica garantiu que o caminho proposto por Luiza Parreiras é o “protocolo padrão-ouro exigido pela ciência para identificar onde o sistema falhou”. E completou: “Para precisão absoluta, é necessário avaliar a dinamometria isocinética (força) prévia das atletas e a cinemática 3D de seus movimentos”.
Sim, há maneiras de reduzir lesões de LCA em 30 a 50%, garantiu Flávia Magalhães: “O caminho para os clubes exige investimento, infraestrutura e uma abordagem multidisciplinar”.
“Programas de prevenção estruturados: A implementação diária e rigorosa de protocolos de aquecimento neuromuscular, como o FIFA 11+ ou o PEP (Prevent injury and Enhance Performance – prevenção de lesão e melhora de performance). Esses programas ‘ensinam’ o sistema nervoso da atleta a aterrissar corretamente – absorvendo o impacto com flexão de joelho e quadril – e fortalecem o core e os isquiotibiais”.
“Controle de carga individualizado: Utilizar os dados de GPS e percepção de esforço para garantir que nenhuma atleta sofra aumentos bruscos de carga, respeitando a métrica ACWR. O descanso – monitoramento de sono e hidratação – deve ser tratado como parte ativa do treinamento”.
“Avaliações biomecânicas na pré-temporada: Realizar testes para corrigir desequilíbrios de força entre a parte da frente e de trás da coxa (dinamometria) e análises de salto para identificar atletas com valgo dinâmico grave, corrigindo o padrão de movimento antes que a lesão ocorra”.
“Atenção ao ciclo menstrual e equipamentos: Individualizar a carga de treino de acordo com a fase do ciclo da atleta – reduzindo exposição a riscos nos dias de maior frouxidão ligamentar – e garantir o uso de chuteiras com travas adequadas para o tipo de gramado (FG, SG, AG), buscando calçados que respeitem a anatomia do pé feminino”.
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