Início » Da desconfiança ao protagonismo: uma entrevista com Ruan, zagueiro do Atlético; leia


Peso do histórico familiar no futebol, desconfiança na chegada a Belo Horizonte, afirmação silenciosa dentro das quatro linhas, gosto “especial” por clássicos… Em pouco menos de 20 minutos na Cidade do Galo, em Vespasiano, Ruan Tressoldi passou com naturalidade por esses e outros temas e mostrou ser um jogador de respostas curtas, mas sinceras – e até sorridentes. A seguir, você confere a entrevista completa com o zagueiro recém-comprado pelo Atlético, realizada de forma exclusiva por No Ataque na última segunda-feira (6/7).
Jogador do Galo desde agosto do ano passado, Ruan teve de lidar com críticas antes mesmo da estreia com a camisa preta e branca. O clube mineiro apostou nas qualidades do zagueiro enquanto ele se recuperava de uma artroscopia no joelho direito e fechou negociação por empréstimo junto ao Sassuolo-ITA.
Pouco a pouco, o gaúcho de Tramandaí ganhou a confiança da torcida alvinegra e se firmou como um pilar do Atlético. Já são 43 jogos pelo Galo, com dezenas de atuações seguras e até mesmo três gols.
O estilo de jogo firme e combativo, aliado à velocidade, foi decisivo para que o clube decidisse – mesmo em meio ao momento de limitação financeira – optar pela compra de Ruan nesta janela de transferências. Em nova fase na carreira, o zagueiro sonha com a Seleção Brasileira e quer “fazer história” no Atlético.

Ruan Tressoldi durante entrevista exclusiva ao No AtaqueFoto: Leandro Couri/EM/D.A. Press

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Ruan Tressoldi durante entrevista exclusiva ao No AtaqueFoto: Leandro Couri/EM/D.A. Press

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A seguir, leia a entrevista completa de Ruan Tressoldi. O material também está disponível em vídeo no canal do YouTube de No Ataque.
No Ataque: Ruan, você é natural de Tramandaí, né? No Rio Grande do Sul. Como foi a infância por lá? Chegou a enfrentar dificuldades?
Ruan Tressoldi: Minha infância foi a infância de todo moleque. Comecei a jogar futebol na escola. Aí, lembro que as professoras chamaram meus pais falando: ‘Ah, bota esse menino em uma escolinha’. Eu tenho um irmão gêmeo também, e a gente estava sempre junto. ‘Bota os meninos em uma escolinha’. A gente começou ali. Meu pai também é ex-jogador. Jogou no Rio Grande do Sul e na Paraíba também. A gente começou em Tramandaí a jogar. Aí, meus pais me colocaram em uma escolinha. Eu lembro que a gente começou. Foi para o São José, que é um time do interior ali, que já tem uma base bem estruturada. Depois, fomos para o Novo Hamburgo, até que chegamos no Grêmio. Em menos de um ano, já estava estreando no profissional. Foi bem rápida assim minha ascensão no futebol.
Quem foi o seu maior incentivador nessa trajetória?
Eu levo o meu pai como uma grande referência para mim. Como eu falei antes, ele jogou. Então, entende a malandragem do futebol. Estava sempre falando comigo. Ele foi zagueiro também. Meu irmão até brincava, porque ele é atacante, e dizia que eu era o filho preferido porque eu era zagueiro (risos). Eu levo meu pai como uma referência maior assim. Um cara que eu sempre procuro escutar quando me fala alguma coisa. É a minha referência máxima.
Como foi se tornar jogador de futebol junto com seu irmão gêmeo? Vocês se dão conselhos, mesmo vivendo em lugares diferentes e jogando em posições diferentes?
Meu irmão agora decidiu parar, cuidar das coisas dele. A gente se fala bastante. É um cara que tem uma história no futebol, por mais que seja um pouco menor que a minha. É um cara que entende também, bastante. Procuro sempre perguntar para ele, pedindo dicas também. É um cara que me ajuda bastante nessa questão.
Já no Grêmio, você passou por diversas categorias – inclusive o sub-23 – e levou um certo tempo pra se firmar entre os profissionais. Como foi esse processo pra você? Teve alguma ansiedade ou receio da sua parte de não conseguir virar?
Eu acho que ansiedade sempre tem. Ainda mais quando você é um moleque sonhador, que veio de baixo, veio de uma cidade pequena. É difícil, cria uma ansiedade. Mas eu acho que as coisas aconteceram do jeito que tinha que acontecer. Eu brinco que, às vezes, não me sinto merecedor de estar aqui (risos). Mas Deus me abençoou. Sou grato de estar aqui, grato de ter jogado em grandes clubes e de estar em um clube gigante como o Atlético.
Depois de uma boa temporada com o Grêmio em 2021, você foi vendido pro Sassuolo e passou pouco mais de dois anos por lá. Como foi essa experiência? Em quais pontos acha que mais evoluiu como jogador?
Todo mundo sabe: eu acho que a escola italiana para defensores é muito forte. Eu aprendi muito lá. Coisas que talvez eu não dava tanta importância aqui no Brasil, que eu cheguei lá e eles me ensinaram bastante. Foi uma experiência muito boa para mim, porque eu aprendi muito lá. Não só como jogador, mas também como pessoa – foi uma parte da minha vida em que eu evoluí bastante, como homem também. Até pelo fato de ter ido para lá sozinho, de ter que criar maturidade sozinho. Foi uma experiência muito boa assim.
E você tem vontade de voltar para a Europa no futuro, mais maduro?
Cara, eu tenho. Sinto que a minha história acabou na Itália, mas eu sinto que tenho mais para dar, sabe? Eu sinto que posso evoluir mais, chegar em grandes clubes lá fora também – até porque ainda sou um cara novo. Então, tenho um sonho também de chegar na Seleção Brasileira. Acredito que as coisas caminhando bem aqui, fica mais perto de acontecer.
Mudando um pouco para o lado pessoal, você é um cara de muita fé. Como sente que a religiosidade te ajuda como atleta e como pessoa?
Foi lá na Itália que eu evoluí bastante minha fé, minha espiritualidade. Como eu disse antes, eu me via muitas vezes sozinho. Ter Deus do meu lado foi uma coisa que me ajudou bastante. Depois com a minha esposa, que foi uma pessoa que me levou mais ainda para o caminho de Cristo. Foi uma coisa que foi com o tempo. Aconteciam coisas lá atrás que era Deus tentando se aproximar de mim, e as coisas aconteceram da forma que aconteceram porque Deus quis. Sou grato a Deus pela minha espiritualidade, pela minha fé, porque foi Ele que me trouxe aqui, que me trouxe de volta para o Brasil, para tentar fazer diferente. Ser mais reconhecido aqui também. Devo tudo a Deus.
Como é o Ruan Tressoldi dentro do clube? Gosta da resenha ou prefere ficar mais concentrado e reservado? Quem é seu melhor amigo aqui dentro?
Eu sou um cara que tem bastante amigos aqui dentro. Tem o Reinier, que é um cara que a gente concentra junto, está sempre junto. Mas eu sou um cara mais reservado. Não fujo da resenha (risos), sabe? Tem o momento de brincar, tem o momento de trabalhar. Eu levo isso muito a sério. Momento de trabalhar é o de trabalhar e o de brincar é o de brincar. Eu acho que o Reinier, o próprio Bernard e o Lyanco são os caras que mais brincam no dia a dia, ficam na resenha. O Lodinho também. Acho que é isso.
Você é um dos jogadores do elenco que mais declara o carinho ao Atlético. Mesmo antes de ser comprado, em abril, você falou sobre a gratidão que sente pelo Galo ter aberto as portas a você em um momento muito difícil, e que fazia tempo que não se sentia tão feliz. O que o Galo significa para você? Esse seu sentimento continua?
Desde a minha volta ao Brasil, o Galo foi um time pelo qual eu criei um carinho muito enorme. Não só o Galo, mas a diretoria que confiou em mim em um momento em que eu precisava. O Paulo (Bracks), pessoal da diretoria, foram pessoas que fizeram a diferença nessa questão para mim. Depois que eu me machuquei, fiz a cirurgia e tive um momento difícil, me senti meio desamparado na questão de: ‘Vou fazer o quê agora? Vou para onde?’ Sou grato a Deus, grato ao Paulo, grato à diretoria, ao Atlético também, pela forma como me receberam, pela forma como confiaram em mim. Sendo difícil confiar em um jogador que chega aqui, ainda precisa de um tempo de recuperação para começar a jogar. Sou extremamente grato ao Atlético e à diretoria por ter confiado em mim.
Como foi o primeiro contato do Galo com você e seu staff? Qual foi sua reação ao descobrir o interesse do clube e como foram as negociações?
Foi de surpresa. Você ter um clube gigante como o Atlético interessado em você, mesmo você estando machucado, me surpreendeu bastante. ‘Pô, os caras confiam em mim’. Eu me senti confiante em vir para cá, em fazer minha recuperação tranquilo, porque eu sabia que a diretoria ia abraçar a minha causa. As coisas aconteceram da melhor forma, graças a Deus. Hoje, o Atlético me comprou. A diretoria confiou em mim de verdade. Sou extremamente grato por isso.
No início, uma parte da torcida criticou a sua contratação porque você vinha de uma artroscopia no joelho. Você chegou a acompanhar isso nas redes sociais? Se sim, como é pra um jogador ter de lidar com essas situações antes mesmo de estrear?
Sempre respinga alguma coisa para a gente saber dessas questões, mas acho que levo isso como um incentivo a mais. Me dá uma motivação a mais. Porque eu sabia que eu poderia dar mais, que eu poderia recuperar, que eu poderia ser um nome que hoje estou sendo aqui no Galo. Levei mais assim essa questão das críticas, porque isso é normal, isso acontece no futebol. E muitas vezes vai ser mais críticas do que elogios. Levei isso mais como uma motivação para mim, para eu continuar crescendo, recuperar bem. Eu lembro que eu corria aqui, na recuperação, e pensava: ‘Não, eles vão ver que eu mereço estar aqui, que eu mereço a confiança da diretoria, mereço a confiança de todos’. Graças a Deus, foi o que aconteceu.
Desde que você chegou ao Atlético, trabalhou com Cuca, Sampaoli e Barba. Qual mais encaixou com você? Quais as diferenças no convívio com eles? Por que acha que está dando tão certo com o Domínguez?
Acho que cada pessoa tem o seu diferencial, a sua peculiaridade. São pessoas diferentes, são profissionais diferentes. Cada um pensa de uma forma, assim como cada jogador tem uma personalidade. Com o professor Barba, o diferencial que eu vejo é que ele é um cara que escuta bastante a visão dos jogadores também. Está sempre perguntando: ‘Você se sente à vontade de fazer isso aqui? Tal coisa?’ A gente fala: ‘Prefiro fazer de tal jeito’. E isso faz diferença para os jogadores, sabe? Os jogadores se sentirem ouvidos. Claro que a palavra final é dele, mas o jogador se sentir ouvido é muito importante também.
O seu primeiro gol pelo Galo foi justamente num clássico contra o Cruzeiro. Qual foi a sensação naquele momento?
Eu brinco. Claro que eu nunca vou me esquecer, mas falo que lembro pouco do gol, na hora que a bola chegou, da cabeçada, porque foi um momento de euforia, sabe? Eu lembro que, quando eu vi, a bola já estava perto, então mirei o gol, cabeceei e graças a Deus consegui fazer o gol. Foi um momento muito feliz para mim, porque senti um pensamento de redenção. Como você falou, cheguei em um momento difícil da minha carreira. Estrear assim 90 minutos e ainda fazer um gol no clássico foi muito gratificante.
Aliás, você gosta bastante dos clássicos, né? Já fez provocação ao Cruzeiro em rede social, costuma dar umas encaradas no Kaio Jorge… É um jogo diferente pra você?
Eu sempre levei os clássicos de uma maneira diferente. A concentração tem que estar mais acima, o foco também. Clássico é clássico. A gente fala bastante que não se joga, se vence. Eu acho que o que faz a diferença no clássico é essa vontade, vontade de querer ganhar, de querer competir – que é o mais importante. Joguei diversos clássicos, mas é diferente. Cruzeiro e Atlético é diferente.
Por quê?
É um clássico que falo para minha família que se assemelha muito ao GreNal. Um clássico de embate, de duelos. É um jogo que eu me sinto mais à vontade de fazer, de duelar, de brigar, porque eu me vejo como um cara assim. Forte nos duelos, firme quando tem que ser. É um clássico diferente de jogar. Muito bom de jogar esse clássico.
Falando no clássico, recentemente tivemos um momento bem marcante que foi a pancadaria no Mineirão na final do Mineiro. O que passou pela sua cabeça no momento em que tudo explodiu?
Foi muito rápido. Muitas coisas aconteceram, muito rápido. Acho que a gente tem que estar pronto para, em qualquer situação, defender os nossos companheiros, defender o nosso escudo e representar a torcida dentro de campo do jeito que for.
Um dos momentos mais marcantes da primeira metade da temporada foi a saída do Hulk para o Fluminense. Como você e o vestiário reagiram ao sabe que ele não jogaria mais? A liderança dele ainda faz falta?
O Hulk é um cara que tem uma história gigantesca no Atlético. É inegável dizer que a gente sentiu. É óbvio que a gente sentiu. Todo mundo sentiu. Pessoal da diretoria, do staff, da limpeza… Todo o pessoal sente quando um ídolo se despede assim do clube. Mas eu acredito que a gente tem que pegar isso e levar de uma forma positiva. O líder máximo saiu. Acho que cada um tem que pegar um pouquinho da sua liderança todo dia e depositar dentro do vestiário, dentro do campo, do trabalho. Acho que uma coisa boa que aconteceu é que a gente não tem um só líder agora. A gente tem vários líderes dentro do vestiário.
Você está assumindo esse papel também?
Estou, estou sim. Estou tentando assumir o máximo dessa liderança. Até porque, eu entendi que eu posso ser esse líder. Todo dia, procuro ser um pouco desse líder assim. Claro que não vou ser um líder do tamanho do Hulk, mas acho que cada um tem sua história, procura fazer sua história no clube e eu quero fazer história aqui dentro.
O momento da saída do Hulk coincidiu, inclusive, com dias de muita turbulência interna. O Barba chegou a fazer cobranças públicas ao elenco, e o próprio Lodi admitiu que o clima estava pesado. Como vocês lidaram com isso?
O futebol é um ambiente de muita pressão. A gente se viu pressionado em um momento e começou a surgir problema aqui, problema ali, mas a gente se abraçou no vestiário e falou: ‘Só vai sair dessa situação se a gente se abraçar. Todo mundo. Não só os jogadores, mas a diretoria, a comissão. Todo mundo se abraçar aqui dentro e fazer as coisas diferente’. As coisas estão bem melhores. Bem melhores mesmo. A gente conseguiu se fechar mais, conseguiu fazer nossa cúpula dentro do vestiário, que é o mais importante.
Ruan, recentemente, o clube comprou o seu passe junto ao Sassuolo, mesmo em um momento de dificuldade e limitações financeiras. O que isso significa pra você? Como você espera retribuir isso?
Cara, eu espero retribuir isso da melhor forma que eu posso fazer, que é demonstrando meu futebol. Mantendo a regularidade que eu venho mantendo. Mais uma vez, agradeço o Paulo, agradeço a diretoria, por confiarem em mim mesmo nesse momento de dificuldade financeira. Todos os dias eu penso nisso. Eu tenho que retribuir, tenho que correr, tenho que fazer o que for preciso para retribuir tudo isso que estão fazendo por mim.
Mudando de assunto e falando de Seleção Brasileira, agora com esse novo ciclo. Com a continuidade dessa sua boa fase, você almeja receber chance de Ancelotti no ciclo para a próxima Copa do Mundo?
Eu acho que chegar em uma Seleção Brasileira é o ápice do jogador. Claro que eu almejo isso para a minha carreira. Isso é uma das coisas que eu quero focalizar ali para frente para, se Deus quiser, chegar a ser convocado algumas vezes e também me consolidar na Seleção, se Deus quiser. Só vou conseguir se eu performar do melhor jeito aqui no Galo. Então, estou focado nisso, estou focado aqui, para que eu possa conquistar coisas grandes ali na frente, com a Seleção Brasileira.
Queríamos que você falasse sobre a sua relação com a torcida do Galo. A gente lembrou da dificuldade no início, a desconfiança, e agora todo torcedor te vê como um pilar do time. Como você enxerga a sua relação com a torcida e como vê o torcedor do Atlético?
Cara, a gente brinca no vestiário que aqui na Arena MRV a gente é muito forte. A gente até brinca: a gente vira o Real Madrid na Arena MRV (risos). Porque a força da torcida nos dá uma motivação a mais, um empurrão a mais. Desde o primeiro dia em que cheguei aqui, vi essa força aqui dentro, vi a paixão do torcedor, que é muito diferente de todos os lugares em que eu passei. Aqui realmente o torcedor vive o clube, vive essa paixão, e eu me sinto representado fora de campo por eles. Eu procuro retribuir ao máximo essa paixão deles, procuro ser mais um atleticano, mais um da Massa, dentro de campo.
É daí que vem aquela frase: “É uma loucura ser Galo Doido”?
É uma loucura ser Galo Doido! É isso! É uma loucura estar aqui, é uma loucura representar esse clube e representar essa torcida que é maravilhosa.
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A notícia Da desconfiança ao protagonismo: uma entrevista com Ruan, zagueiro do Atlético; leia foi publicada primeiro no No Ataque por Lucas Bretas

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