Ídolo do Corinthians lembra reviravolta após menosprezo no Cruzeiro: ‘Chorei sozinho’

Ídolo do Corinthians lembra reviravolta após menosprezo no Cruzeiro: ‘Chorei sozinho’

7 minutos 10/06/2026
Ídolo do Corinthians lembra reviravolta após menosprezo no Cruzeiro: ‘Chorei sozinho’
Ídolo do Corinthians lembra reviravolta após menosprezo no Cruzeiro: ‘Chorei sozinho’ (Dinei deu duas assistências pelo Corinthians na final do Brasileirão de 1998 contra o Cruzeiro)

Dinei é um torcedor fervoroso do Corinthians que realizou o sonho de defender o clube do coração. Ele foi o primeiro jogador a vencer o Campeonato Brasileiro em três ocasiões pelo Timão – 1990, 1998 e 1999. O outro a atingir tal façanha é o ex-meia Danilo (2011, 2015 e 2017).

Em entrevista ao canal do Cosme Rímoli, no YouTube, o ex-atacante falou com emoção do título do Brasileirão de 1998, conquistado sobre o Cruzeiro. Chamado de Talismã da Fiel por ser acionado no segundo tempo para ajudar a equipe a reverter placares, ele foi decisivo ao participar de todos os gols alvinegros contra a Raposa.

Ganhar a final de 28 anos atrás teve sabor especial para Dinei, que atuou pelo Cruzeiro de 1995 a 1996 e diz ter sido menosprezado pelo presidente Zezé Perrella.

O curioso é que o ex-ponta foi peça importante em duas conquistas internacionais da Raposa em 1995: a Copa Ouro Conmebol e a Copa Master da Supercopa.

Final da Copa Ouro de 1995 entre Cruzeiro e São Paulo - (foto: 24/10/1995. Credito: Euler Junior/Arquivo EM)

Final da Copa Ouro de 1995 entre Cruzeiro e São Paulo(foto: 24/10/1995. Credito: Euler Junior/Arquivo EM)

Na Copa Ouro houve uma situação curiosa. No jogo de ida, no Mineirão, o Cruzeiro teve quatro atletas expulsos – Rogério, Vanderci, Fabinho e Marcelo Ramos -, perdeu Luiz Fernando Gomes por lesão, e a partida foi encerrada com vitória do São Paulo por 1 a 0 em consequência do número insuficiente de atletas do time azul.

Como o regulamento não previa eliminação do torneio em episódio de WO, as equipes se enfrentaram na volta. E a Raposa ganhou por 1 a 0, no Pacaembu, em São Paulo, justamente com gol de Dinei. Nos pênaltis, vitória celeste por 4 a 1.

Dinei também teve papel importante no título da Copa Master diante do Olimpia, do Paraguai. O atacante sofreu o pênalti convertido por Marcelo Ramos aos 32 minutos do segundo tempo. O triunfo no Mineirão por 1 a 0 garantiu a taça ao Cruzeiro. Na ida, as equipes empataram por 0 a 0 no Defensores del Chaco, em Assunção.

“Fui bem no Cruzeiro. Meu apelido era ‘Animal’. A Máfia Azul me chamava de ‘Animal’. Fiz gol do título contra o São Paulo na Copa Ouro. Foi 1 a 0 para o São Paulo no Mineirão. Houve quatro ou cinco expulsos do Cruzeiro e acabou o jogo com 20 minutos do segundo tempo. Aí ganhamos de 1 a 0 no Pacaembu, com gol meu, vencemos nos pênaltis e fomos campeões da Copa Ouro”.

Dinei, ex-jogador de futebol

‘Preço de banana’

Em 1995, Dinei jogou 35 partidas pelo Cruzeiro – 18 como titular e 17 saindo do banco de reservas – e marcou sete gols. No ano seguinte, perdeu espaço no elenco a partir da chegada do técnico Levir Culpi e foi emprestado ao Guarani.

Beto Zini, presidente do Guarani, depositou confiança em Dinei e foi a Belo Horizonte para negociar com o Cruzeiro. O jogador ficou magoado com as palavras que ouviu de Zezé Perrella.

“Chegamos a Belo Horizonte, e o Beto Zini disse: ‘Estou vindo aqui para comprar o Dinei’. O Zezé Perrella falou assim: ‘esse aí, se você der qualquer preço, a gente vende a preço de banana. Não vai dar nada. A gente está se livrando’. Eles me venderam por R$ 200 mil. Falta de respeito comigo”.

Dinei

À época, Dinei lidava com problemas extracampo. Tanto que o Guarani o emprestou duas vezes, para Coritiba e Inter de Limeira, e o jogador não deu certo em nenhum desses clubes.

Pego no antidoping pelo uso de cocaína em 1996, o atleta recebeu suspensão de 240 dias e teve a chance de recomeçar após passar por tratamento na clínica de reabilitação coordenada por Edson Ferrarini, coronel da Polícia Militar, psicólogo e deputado estadual por sete mandatos consecutivos em São Paulo.

O recomeço para Dinei

Em 1997, Dinei marcou 10 gols pelo Guarani no Brasileirão. No ano seguinte, balançou a rede sete vezes no Paulistão. O Corinthians queria contratar um atacante. Muller, Evair e Roni eram as opções sugeridas pelo técnico Vanderlei Luxemburgo.

Mas as lideranças da torcida organizada Gaviões da Fiel, da qual Dinei fez parte na adolesência, pressionaram para que ele recebesse uma oportunidade, a ponto de ameaçar usar o dinheiro do carnaval para comprar o passe do jogador.

Segundo Dinei, o Burge pediu inicialmente R$ 2 milhões. O presidente Alberto Dualib achou caro. Os integrantes da Gaviões insistiram. O clube de Campinas, então, concordou em reduzir para R$ 700 mil, recebendo em troca o meia Marcelinho Paulista.

Com o Talismã recém-recuperado de lesão, o Corinthians liderou a primeira fase do Brasileirão ao somar 46 pontos em 23 rodadas. Nas quartas de final, passou pelo Grêmio. Na semifinal, eliminou o Santos. Na finalíssima, veio o Cruzeiro.

Os bastidores de Corinthians x Cruzeiro

Dinei contou os bastidores daquela final. Tudo começou a partir de um chamado do técnico Vanderlei Luxemburgo na véspera do primeiro jogo contra o Cruzeiro, em 13 de dezembro de 1998, no Mineirão.

“Corinthians e Cruzeiro no Mineirão. Sábado à noite. Estou jantando. O Chicão segurança liga lá no quarto, e quem atende é o Rincón. ‘Freddy, fala com com o Dinei ir lá no quarto do Vanderlei’. O colombiano já me pergunta: ‘o que você aprontou?’ Eu não tinha aprontado nada’”.

No quarto, Dinei ouviu palavras motivacionais de Luxemburgo sobre a possibilidade de ser o primeiro jogador da história do Corinthians a vencer o Brasileirão por duas vezes. Tudo fazia parte de uma estratégia elaborada por Edson Ferrarini, o homem que ajudou o jogador a se livrar das drogas.

“O Vanderlei disse que eu estava em débito com a torcida do Corinthians, que tinha me ajudado a vir para o clube”.

Dinei

Dinei no Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, antes da final entre Cruzeiro e Corinthians no Brasileirão de 1998 - (foto: Otavio Dias de Oliveira/Folhapress )

Dinei no Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, antes da final entre Cruzeiro e Corinthians no Brasileirão de 1998(foto: Otavio Dias de Oliveira/Folhapress )

‘Coisa de Deus’

Na reserva, o camisa 18 viu o Cruzeiro fazer 1 a 0 com Muller e foi chamado no intervalo para entrar no lugar de Didi. A situação se complicou quando Valdo, camisa 10 da Raposa, mandou a bola na gaveta do goleiro Nei em cobrança de falta: 2 a 0.

Dinei, por sua vez, incorporou o “super-homem” com a possibilidade de se tornar ídolo do clube do coração. Ele diminuiu a desvantagem ao dominar a bola sob a marcação do lateral-direito Ronaldo e chutar no canto esquerdo de Dida. Depois, cruzou de pé esquerdo na cabeça de Marcelinho Carioca: 2 a 2.

O segundo jogo também terminou empatado por 1 a 1. O gol do Corinthians saiu a partir de um erro de passe de Wilson Gottardo, zagueiro do Cruzeiro. Edílson recuperou a bola e esticou para Dinei, que ganhou de Marcelo Djian na dividida e clareou para Marcelinho balançar a rede.

Por fim, no terceiro e último duelo, no Morumbi, Dinei deu duas assistências na vitória corintiana por 2 a 0. No primeiro gol, recebeu de Ricardinho e enfiou a bola para Edílson, que driblou Dida e estufou as redes. No segundo gol, livrou-se da marcação de Caio e cruzou na pequena área, com Marcelinho se atirando de “peixinho” para levar a Fiel à loucura.

Nem eu acreditava que fiz tudo aquilo. Passou um filme na minha cabeça. A minha virada de jogo em campo, contra o Cruzeiro. Era coisa de Deus. Foi tão bonito o Marcelinho virando pra mim e dizendo: ‘foi você quem ganhou pra nós’. Eu levanto, o Rincón e o Marcelinho me seguram. Quando acabou o jogo, o Joaquim Grava veio me abraçar, e eu dei minha camisa do jogo a ele. Ele disse assim: ‘filho, você merece tudo isso que está passando’. Aí vêm os caras da Gaviões e me deram a camisa da torcida. Os caras estavam comemorando dentro de campo. O único que estava no vestiário era eu. E lá, o Luxemburgo me esperava. Ele disse assim: ‘você ganhou o título, filho. Você merece’”. Fiquei chorando sozinho no vestiário, eu não acreditava. Na transmissão da Globo, o Galvão Bueno falou que ‘o Dinei ganhou a vida no jogo’. Me pegaram descendo as escadas. Só eu sei o que passei para chegar a esse objetivo. Era o sonho de um garoto jogando no time do coração. Torcedor da Gaviões. Queria mostrar para mim, primeiramente, e depois para pessoas que tinham problemas com drogas. Eu virei uma referência para as pessoas. Tem hora não acredito que isso aconteceu comigo. A virada que eu dei. E foi contra o Cruzeiro, coisa de Deus, eles me humilharam. Os cinco gols saíram do meu pé”.

Dinei, ex-jogador do Corinthians

Claudinei Alexandre Pires, o Dinei, jogou no Corinthians de 1990 a 1992 e entre 1998 e 2000. Em 194 jogos (91 como titular), marcou 34 gols e celebrou os títulos do Paulistão de 1999 e do Mundial de Clubes da Fifa em 2000, além dos já citados Brasileirões de 1990, 1998 e 1999.

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