Ídolo do Cruzeiro entrega briga no vestiário do Santos de Pelé após goleada humilhante: ‘Bicho pegou’

Ídolo do Cruzeiro entrega briga no vestiário do Santos de Pelé após goleada humilhante: ‘Bicho pegou’

5 minutos 15/06/2026
Ídolo do Cruzeiro entrega briga no vestiário do Santos de Pelé após goleada humilhante: ‘Bicho pegou’
Ídolo do Cruzeiro entrega briga no vestiário do Santos de Pelé após goleada humilhante: ‘Bicho pegou’ (Pelé encarou o Cruzeiro de Natal, Tostão, Evaldo, Dirceu Lopes, Piazza, Procópio e cia, no Mineirão)

A história do futebol brasileiro é feita de momentos que desafiam a lógica, e poucos são tão emblemáticos quanto a final da Taça Brasil de 1966. Em uma conversa franca e carregada de nostalgia no programa Concentração, de No Ataque, o ídolo cruzeirense Natal, hoje aos 80 anos, relembrou os bastidores do confronto que mudou o patamar do futebol mineiro e expôs a fragilidade emocional de um “time de invencíveis” quando confrontado pela ousadia do Cruzeiro.

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Antes da bola rolar no Mineirão, o clima entre os jogadores celestes, descreve Natal, era de um realismo que beirava o pessimismo. O Santos, então bicampeão mundial e base da Seleção Brasileira, era visto como uma força imbatível.

O ex-ponta recorda com precisão a conversa que teve com um companheiro de equipe momentos antes de entrarem para a história.

“Foi uma coisa incrível. Antes do jogo, conversando com alguns jogadores lá, não vou citar o nome dele não, que depois ele me bate… Ele falou: ‘Será que nós vamos ganhar esse jogo?’. Eu falei: ‘Ah, vamos jogar. Se perder, está perdendo para o time de Pelé e o Santos bicampeão do mundo. Aí, tomado uns quatro ou cinco, vai fazer o quê? A torcida não vai gostar’. Mas deu o contrário. Primeiro tempo, cinco [a zero].”

Natal, ídolo do Cruzeiro, campeão da Taça Brasil de 1966

O placar elástico do Cruzeiro diante do Santos antes do intervalo foi tão surreal que os próprios atletas celestes custavam a acreditar no que viam no telão do Mineirão.

Autor de dois gols naquela partida, Natal relembra a cena com detalhes: “Eu descendo com ele [um companheiro], ele falou assim: ‘Será que é verdade isso?’. Falei: ‘Você está cego? Olha lá, olha lá. 5 a 0…’. Ele falou: ‘Ah, é mesmo?’. E graças a Deus conseguimos um resultado fabuloso, porque ninguém acreditava”.

O colapso do Rei Pelé e cia.

A superioridade técnica do Cruzeiro na noite de 30 de novembro de 1966 resultou em sonora goleada por 6 a 2 e provocou um “curto-circuito” estratégico e emocional no esquadrão santista. Habituados a dominar todos os adversários do Brasil, Pelé, Gilmar, Carlos Alberto Torres, Zito, Dorval, Pepe e cia. perderam a compostura diante do nó tático sofrido em Minas Gerais.

“Inclusive Pelé brigando com Carlos Alberto, Carlos Alberto brigando com Edu, Edu brigando com o meio-campo, com os jogadores. Entre eles lá eu fiquei abismado porque estavam acostumados a vencer e todos os títulos que disputavam. Numa final, nem precisavam jogar que já eram campeões. Eles quebraram a cara. Estavam atordoados.”

Essa desestabilização do Santos foi tão profunda que respingou no lendário goleiro Gilmar. Após sofrer seis gols no Mineirão, o ambiente no vestiário do Peixe azedou de vez, levando a uma mudança drástica para o jogo de volta no Pacaembu, recorda-se Natal.

Natal, ídolo do Cruzeiro - (foto: Arquivo: O Cruzeiro/EM)

Natal, ídolo do Cruzeiro, ergue o troféu de campeão da Taça Brasil de 1966, na Avenida Afonso Pena(foto: Arquivo: O Cruzeiro/EM)

“O goleiro era Gilmar. Timaço, né? Inclusive no jogo lá [em São Paulo] ele não entrou, não jogou. Tomou seis gols porque houve a confusão, uma discussão no vestiário depois do jogo no Mineirão. Bicho pegou lá entre os jogadores. Fiquei sabendo de tudo porque me contaram, jogadores que estavam no grupo lá, que eu convivia mais. E aí botaram o Cláudio para jogar [no Pacaembu], o que não adiantou nada, né? Ali podia botar até dois goleiros que estava dando tudo certo para o Cruzeiro.”

No jogo de volta, em 7 de dezembro daquele ano, o time celeste venceu por 3 a 2, de virada. O gol que sacramentou o título da Raposa, inclusive, saiu dos pés de Natal.

O ‘futebol raiz’: tesoura, esparadrapo e meias no pescoço

Para além dos gols e das brigas, Natal fez questão de ressaltar que a glória de 1966 foi conquistada em uma era de extrema precariedade material, muito distante dos luxos das arenas modernas da Copa de 2026. A vitória sobre o Santos foi também icôncia por representar o “futebol raiz”, afirma.

“Material não tínhamos. O jogo contra o Santos lá que nós ganhamos por 3 a 2, não tinha material para trocar no segundo tempo. Se rasgasse uma camisa ou um calção ali, o bicho pegava. Estava jogando de branco, botava uma camisa azul e aí misturava tudo. Era um material simples. Inclusive no jogo contra o Santos choveu muito, e aquelas meias de ‘1900 e Kafunga’, como diz o outro. Botei a meia e ela veio quase no meu pescoço. Tive que pegar uma tesoura, cortar, pegar um esparadrapo e botar na perna para poder jogar, para terminar”, relembrou.

Cruzeiro campeão da Taça Brasil de 1966 - (foto: Arquivo/Estado de Minas)

Cruzeiro campeão da Taça Brasil de 1966. Em pé: Neco, Pedro Paulo, William, Procópio, Piazza e Raul (goleiro); Agachados: Natal, Tostão, Evaldo, Dirceu Lopes e Hilton Oliveira(foto: Arquivo/Estado de Minas)

Cruzeiro 6 x 2 Santos, no Mineirão:

Cruzeiro: Raul; Pedro Paulo, Willian, Procópio e Neco; Wilson Piazza, Dirceu Lopes e Tostão; Natal, Evaldo e Hilton Oliveira. Técnico: Airton Moreira

Santos: Gilmar; Carlos Alberto Torres, Mauro Ramos, Oberdan e Zé Carlos; Zito e Lima; Dorval, Toninho Guerreiro, Pelé e Pepe.
Técnico: Lula.

Santos 2 x 3 Cruzeiro, no Pacaembu:

Santos: Cláudio; Lima, Haroldo, Oberdan, Zé Carlos, Zito; Mengálvio, Amauri (Dorval); Toninho Guerreiro, Pelé e Edu. Técnico: Lula.

Cruzeiro: Raul; Pedro Paulo, William, Procópio e Neco; Wilson Piazza, Dirceu Lopes e Tostão; Natal, Evaldo e Hilton Oliveira. Técnico: Airton Moreira.

Assista, na íntegra, à entrevista de Natal:

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