Início » Leonardo Jardim no Flamengo: a lição que fica para a torcida do Cruzeiro


O assunto da semana é o acerto do técnico Leonardo Jardim com o Flamengo. Veio à tona uma frase dita por ele em agosto de 2025, depois da derrota do Cruzeiro para o Santos, por 2 a 1, no Mineirão, pelo Campeonato Brasileiro. “Aqui no Brasil só vou treinar o Cruzeiro, essa é uma verdadeira notícia. Não vou treinar outro clube no Brasil”.
Jardim tinha contrato com a Raposa até dezembro de 2026. Sob seu comando, o time terminou o Campeonato Brasileiro em 3º lugar, com 70 pontos, e chegou às semifinais da Copa do Brasil. Ao fim de 2025, o treinador avisou ao presidente Pedro Lourenço que precisava resolver assuntos pessoais e pediu a rescisão antecipada do vínculo. O clube definiu Tite como substituto.
Técnico de duas Copas do Mundo com a Seleção Brasileira e multicampeão pelo Corinthians, Tite lida com forte pressão no cargo por causa do apego de parte da torcida a Jardim. Devido ao bom desempenho no Brasileirão e à ida às semifinais da Copa do Brasil, os cruzeirenses “se esqueceram” das eliminações na semifinal do Mineiro e na fase de grupos da Sul-Americana em 2025.
De fato, o português teve méritos na Toca, já que ganhou respaldo da diretoria para promover mudanças além das quatro linhas. Uma das principais “revoluções” foi colocar Gabigol – principal contratação em 2025 – no banco de reservas. Isso abriu espaço para Kaio Jorge se valorizar no mercado da bola com as artilharias da Série A (21 gols) e da Copa do Brasil (5 gols).
Mas houve falhas em 2025. E nem se tratam dos fracassos no estadual e na Sul-Americana. No Brasileirão, o Cruzeiro tropeçou no Mineirão diante de equipes que brigavam contra o rebaixamento – derrotas para Santos e Ceará (ambas por 2 a 1) e empate com o lanterna Sport (1 a 1). Também perdeu fôlego na reta final ao somar sete pontos nas últimas seis rodadas (38%).
A Copa do Brasil parecia traçar o caminho dos sonhos, pois Palmeiras e Flamengo, naturais favoritos ao título, caíram de forma precoce no torneio. O Cruzeiro viveu o ápice ao passar de forma contundente pelo rival Atlético nas quartas de final – duas vitórias por 2 a 0. Contudo, parou no Corinthians nas semifinais.
A atuação no duelo de ida, no Mineirão, foi muito ruim. O time controlou a posse de bola, trocou passes de um lado para o outro, mas não teve criatividade para envolver o adversário, que triunfou por 1 a 0 com o polêmico toque de mão de Memphis Depay no lance do gol. Na volta, o Cruzeiro até venceu por 2 a 1, mas perdeu nos pênaltis por 5 a 4.
Acionado por Jardim aos 47 minutos do segundo tempo, Gabigol perdeu a cobrança que poderia sacramentar a classificação mineira à final. No fim das contas, o Timão se sagrou campeão ao bater o Vasco na decisão.

Meses depois de prometer que só treinaria o Cruzeiro no Brasil, Leonardo Jardim está prestes a ser anunciado pelo Flamengo. O clube carioca, aliás, fez uma curiosa movimentação no mercado: demitiu Filipe Luís, campeão brasileiro e da Copa Libertadores em 2025, após ganhar de 8 a 0 do Madureira na semifinal do Campeonato Carioca.
Inclusive, muitos cruzeirenses nutriam a esperança de Pedro Lourenço dispensar Tite e convencer Leonardo Jardim a retornar à Toca para dar sequência ao projeto iniciado em 2025. Nas redes sociais, a hipótese era inflada por criadores de conteúdo relacionados ao clube, bem como por formadores de opinião. Uma espécie de “efeito manada”.
Por mais que a torcida esteja insatisfeita, não parece tão simples mandar embora um técnico com dois títulos do Campeonato Brasileiro (Corinthians), uma Copa Libertadores (Corinthians), uma Copa Sul-Americana (Internacional), uma Copa do Brasil (Grêmio), um Mundial de Clubes (Corinthians) e mais de 80% de aproveitamento em 81 jogos pela Seleção Brasileira.
Devido à Copa do Mundo de 2026, entre junho e julho, o calendário de 2026 do futebol brasileiro ficou ainda mais conturbado. Há alternância entre os estaduais nos fins de semana e o Campeonato Brasileiro às terças, quartas e quintas-feiras. Nessa bagunça, o Cruzeiro oscilou nas primeiras rodadas do estadual e começou mal a Série A (é o penúltimo, com dois pontos em quatro jogos).
Por outro lado, a equipe se recuperou no Mineiro, encerrou a primeira fase com a melhor campanha geral e enfrentará o Atlético na finalíssima marcada para domingo, 8 de março, às 18h, no Mineirão. Tite vive a linha tênue entre fazer o Cruzeiro voltar a ser campeão mineiro depois de sete anos ou não continuar na Toca em caso de revés para o maior rival.

Quanto a Leonardo Jardim, ele criou um monstro para si. Uma “promessa sem jeito”, como diriam Chicó e João Grilo, personagens criados pelo escritor Ariano Suassuna na obra “O Auto da Compadecida”. Torcedores do Cruzeiro invadiram as redes sociais do português e o chamaram de “Judas”, “traidor”, “mercenário”, entre outras palavras negativas.
Leonardo não é o primeiro e nem será o último a quebrar as tais promessas. O próprio Tite acertou com o Flamengo no fim de 2023, depois de garantir que tiraria um ano sabático em razão dos desgastes acumulados na Seleção Brasileira. Meses antes, o poderio econômico do Rubro-Negro Carioca atraiu Vitor Pereira, compatriota de Jardim, que havia recusado a renovação de contrato oferecida pelo Corinthians com o argumento de que a sogra estava doente.
Por mais que tenha feito um bom trabalho no Cruzeiro, Leonardo Jardim não foi campeão. Como fechou a temporada “em alta”, passa a impressão de que atingiu um patamar elevado na história do clube. Técnicos que conquistaram títulos de peso, casos de Marcelo Oliveira, Vanderlei Luxemburgo e Mano Menezes, “não deixaram saudades” nas despedidas, pois saíram em momentos ruins.
Jardim errou ao afirmar que só treinaria o Cruzeiro no Brasil? Sim. Mas há exagero nas reações. Todo mundo, em alguma fase da vida, já quebrou uma promessa. No jornalismo, inclusive, há diversos casos de colegas que juraram não trabalhar em determinados veículos ou redações e no fim das contas foram para esses lugares. Cada um sabe onde o calo aperta. Escolhas compreensíveis que devem ser respeitadas.
A lição que fica para os cruzeirenses é sobre ter amor próprio. Sigam apoiando o clube do coração, independentemente de quem estiver dentro ou fora de campo. Nenhum profissional está acima da instituição. E o mais importante: mantenham a paz no coração, mesmo se os resultados positivos não acontecerem. Futebol é momento de lazer, diversão e descontração. Não vale a pena sentir raiva ou levar para o lado pessoal.

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