Início » Nova mascote do Cruzeiro, Cabulosa reacende debate: como a misoginia opera no cotidiano


Como uma ação que pretende dar voz a mulheres, debater temas importantes e proporcionar representatividade é capaz de desencadear tanto preconceito? O Cruzeiro ‘deu vida’ à Cabulosa, nova mascote da equipe feminina, antes da goleada por 4 a 0 sobre o América. A personagem deixou o público que acompanha a modalidade em êxtase – e não deveria ser muito difícil entender a razão. Em contrapartida, incomodou aqueles frágeis demais para acompanhar o ritmo da sociedade.
O No Ataque republicou o material compartilhado pelo Cruzeiro sobre a Cabulosa. Na postagem, chuva de comentários machistas e homofóbicos. “Representou bem as Marias”, “Os outros eram masculinos?”, “Eles mesmos produzem as chacotas”, “Mas essa é a mascote do time masculino”, “Representou bem o Arroyo” e “Ela parece LGBT, nem peito tem” são algumas das falas separadas para esta reportagem.
Rafaela Souza, pesquisadora na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com interesse em estudos sobre culturas torcedoras e futebol de mulheres, não tem dúvidas para explicar a reação: é dessa forma que a misoginia opera nas instâncias mais cotidianas.
Na avaliação de Rafaela, a criação da Cabulosa reflete o pensamento do Cruzeiro acerca da importância da modalidade, um ‘aval institucional’: “Colocar a mulher no centro de uma ação é uma forma de valorizar o futebol feminino. Poucos clubes fazem isso. O futebol é culturalmente e historicamente pensado para homem”.
No mundo ideal, o debate deveria ter sido levado justamente para esse lado. Entretanto, a estratégia para atrair torcida e levantar debates, incluindo o que os clubes também poderiam fazer para fomentar a modalidade, ficou de lado. Mais uma vez, é necessário batalhar pelo respeito.
A lógica do preconceito é explicada pela pesquisadora. O futebol é um espaço cultural, social e historicamente pensado para homens e por homens. No momento em que o Cruzeiro coloca a figura da mulher no centro do esporte, “é como se existisse uma intrusa dentro dessa lógica, valorização para uma modalidade que não é legitimada” – o futebol feminino foi proibido no Brasil entre 1941 e 1979.
Diante desse contexto, a inferiorização é sempre a partir da figura feminina ou de aspectos ligados à feminilidade. Ou seja, se determinado torcedor quer ofender o rival, recorrerá a substantivos femininos.
“Sempre o feminino é algo inferior. É a lógica histórica do machismo de que as mulheres são inferiores e não podem adentrar esses espaços tidos como dos homens. É como a misoginia opera nas instâncias mais cotidianas. São esses comentários que a gente reproduz de ‘só pode ser Maria’, ‘só pode ser franga’. A misoginia sempre passa por coisas do cotidiano e que a gente reproduz o tempo todo”
Rafaela Souza, pesquisadora da UFMG
É nesse momento, inclusive, que a rivalidade se encontra. Os apelidos ‘Maria’ e ‘franga’, utilizados por atleticanos e cruzeirenses, respectivamente, reproduzem a lógica condenada por Rafaela. Ao mesmo tempo em que as mulheres ganham espaço em locais antes não permitidos, os ataques aumentam.
“Criticar uma coisa comum, a presença de mulheres com aval institucional no futebol. Isso tem aumentado, mas a gente vê na mesma seara como os ataques estão ficando mais frequentes. É um espaço que está sendo ameaçado. E toda vez que esse espaço é ameaçado, os homens tentam a narrativa de ódio. O futebol é só mais um espaço em que isso é cultuado. A gente podia estar discutindo ‘olha só, o Cruzeiro tem uma mascote, está valorizando, fazendo um time competitivo’”
Rafaela Souza, pesquisadora da UFMG
Os comentários preconceituosos abrem margem para a discussão da homofobia, que anda lado a lado com a misoginia. Como reforçado por Rafaela, “a inferioridade é sempre para o lado da mulher ou de pessoas LGBTQIA+. É sempre a partir da figura feminina ou de aspectos ligados à feminilidade”.
Por que a Cabulosa precisa ‘ter peito, senão é LGBT’? Por que o corpo é julgado? Trata-se da vigilância do papel e do corpo feminino, além da hipersexualização.
“O menor desvio ou expectativa não atendida dessa feminilidade significa que ela não é heterossexual e tem a suspeita da sexualidade, assim como você tem a suspeita da sexualidade das mulheres que praticam e gostam de futebol… Se não cumpre certos atributos, só pode ser LGBT. É um ótimo exemplo de como o machismo e a homofobia andam juntos no futebol. São as figuras incompatíveis com o que a gente construiu historicamente como o futebol. Porque é um esporte de combate, ligado a valores misóginos, pensando na virilidade, na força”
Rafaela Souza, pesquisadora da UFMG
No entendimento dessas pessoas, “desviar-se da lógica heteronormativa faz do outro ser ‘anormal’. Ainda mais se ele pertence a um gênero e performa algo cultural e socialmente entendido como de outro”.
Também se iniciou nas redes sociais a discussão de que a Cabulosa ‘nasceria’ como esposa do Raposão e mãe do Raposinho, os outros dois mascotes do Cruzeiro. Outra conclusão vazia que reforça o interesse em projetar o papel da mulher.
“Ela tem que ser a mãe, a esposa. Teve comentário sobre o corpo, a sobrancelha. Não se questiona se o Raposão e o Raposinho estão inclusive no aspecto de corpo atlético. Não tem uma vigilância em relação ao corpo deles. Mas ao corpo dela, assim que ela surgiu, criou-se essa expectativa: tem que ter maquiagem, peito. Dentro da lógica de que a mulher tem que ser ou performar”, continuou Rafaela.
No fim, os aspectos se conectam. A mulher em espaços tidos como masculinos incomoda, o que desencadeia reações de ódio. Na tentativa de inferiorizar o outro, são utilizados aspectos ligados à feminilidade e à sexualidade. Nas arquibancadas, portanto, os substantivos femininos ecoam.
“Foi se naturalizando a questão a partir de diferentes instâncias a tal ponto que a gente vê em falas muito comuns do cotidiano e que sempre refletem a lógica”
Rafaela Souza, pesquisadora da UFMG
A notícia Nova mascote do Cruzeiro, Cabulosa reacende debate: como a misoginia opera no cotidiano foi publicada primeiro no No Ataque por Sofia Cunha

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