Início » Os bastidores da única vitória do Cruzeiro na Bombonera: ‘Quase viraram o ônibus’


A última vitória do Cruzeiro sobre o Boca Juniors-ARG na Bombonera não ficou marcada apenas pelos gols do lateral-direito Paulo Roberto Costa e do ponta-esquerda Roberto Gaúcho. O triunfo celeste por 2 a 1, em 1994, pela Copa Libertadores, também atravessou a história pela atmosfera hostil vivida pela delegação mineira em Buenos Aires.
Da dificuldade para treinar no estádio à chegada sob clima de guerra, passando pela pressão da torcida argentina e pelas constantes provocações em campo, os bastidores daquela noite seguem vivos na memória dos protagonistas.
À época, Cruzeiro e Boca dividiam a última colocação do Grupo 2 da Libertadores, ambos com apenas um ponto. O cenário aumentava ainda mais a tensão de um confronto cercado por rivalidade, pressão e intimidação.
Mais de 30 anos depois, os heróis da vitória ainda descrevem a Bombonera quase como um ambiente de sobrevivência.
A tensão começou antes mesmo da bola rolar. Na véspera da partida, Cruzeiro e Boca chegaram praticamente juntos para a atividade na Bombonera. O clube mineiro, porém, teve apenas 15 minutos liberados para treinar no estádio, sob a suposta justificativa de preservação do gramado.
Na ocasião, o técnico Ênio Andrade ironizou a situação ao perceber a movimentação dos argentinos nos arredores do gramado, e acertou quando “previu” que os argentinos treinariam ali pouco tempo depois.
“Daqui a pouco certamente o Boca vai treinar.”

Segundo Paulo Roberto Costa, capitão daquela equipe, o elenco precisou apostar na confiança e no equilíbrio emocional para suportar a pressão.
“Fomos com muita confiança. O lado psicológico foi muito importante”, relembrou o ex-lateral-direito.
A chegada ao estádio talvez tenha sido o momento mais tenso da noite. Roberto Gaúcho recorda que o ônibus celeste atravessou um verdadeiro corredor de pressão até alcançar a Bombonera.
“Para entrar na Bombonera foi uma guerra. Quase viraram o nosso ônibus.”
Paulo Roberto também descreveu o ambiente como extremamente hostil desde os minutos anteriores ao jogo.
“A chegada do ônibus na Bombonera foi muito difícil. Eu, como capitão, falava com os jogadores sobre entrarmos com 11 e terminarmos com 11.”
Segundo o ex-jogador, o Boca tentou a todo tempo transformar o confronto em um jogo emocionalmente desequilibrado para os brasileiros.
“Sempre que se joga contra os grandes argentinos há provocação e rivalidade. Se não estivermos preparados psicologicamente, eles sabem muito bem provocar e o brasileiro cai na provocação.”
Paulo Roberto ainda detalhou a estratégia argentina dentro de campo.
“O argentino entra preparado para provocar, virar de costas e sair andando. Fingem que vão te pedir desculpas e puxam o cabelo, sabem provocar.”
Dentro de campo, o cenário não era mais fácil. Roberto Gaúcho relembra a pressão exercida pela torcida do Boca como algo “palpável”.
“A pressão, estádio lotado… eu ia bater escanteio ali e parecia que eles estavam me pegando pelo cabelo. É uma pressão muito grande, você tem que ter personalidade.”
O primeiro tempo foi amplamente dominado pelo Boca, que obrigou Dida a realizar grandes defesas para manter o Cruzeiro vivo na partida. Segundo Roberto Gaúcho, porém, o time celeste jamais deixou de acreditar.
“Tinha que ter muita personalidade, vontade. Isso não faltava para o nosso time.”
O ex-ponta ainda fez questão de lembrar a qualidade daquela equipe celeste, que tinha nomes como o atacante Ronaldo Fenômeno, o volante Douglas, o lateral-esquerdo Nonato e o próprio Dida.
“Todo time começa por um grande goleiro. Nosso time tinha muita qualidade, uma defesa sólida, um meio de campo compacto e um ataque fulminante.”
Depois de suportar a pressão, o Cruzeiro encontrou forças para construir uma das vitórias mais emblemáticas de sua história na Libertadores.
Capitão da equipe, Paulo Roberto abriu o placar em cobrança de falta e guarda o lance entre os mais especiais da carreira.
“Foi um dos gols mais bonitos da minha carreira. É bom ouvir a narração do Brasil empolgada e a narração da Argentina triste, murcha.”
Já Roberto Gaúcho revive o segundo gol quase em câmera lenta, como se ainda estivesse em campo na Bombonera.
“O Ademir roubou a bola, tocou no Luiz Fernando e eu já entrei na diagonal entre os dois zagueiros. O Luiz Fernando enfiou essa bola, eu fui rápido, ágil e fuzilei o Navarro Montoya.”
A escalação do Cruzeiro na vitória por 2 a 1 sobre o Boca Juniors teve Dida; Paulo Roberto, Célio Lúcio, Luizinho e Nonato; Ademir, Douglas, Luiz Fernando e Macalé (Cleison); Ronaldo e Roberto Gaúcho. O técnico era Ênio Andrade.
As equipes integravam o Grupo 2 da Libertadores, considerado o “da morte” em razão de confrontar brasileiros e argentinos. Além de Cruzeiro e Boca, a chave tinha Palmeiras e Vélez Sarsfield.
A Raposa avançou em segundo lugar, abaixo do Vélez e acima do Palmeiras. O Boca segurou a lanterna. Nas oitavas de final, o Cruzeiro enfrentou a Unión Española e foi eliminado com derrota por 1 a 0, no Chile, e empate por 0 a 0, em BH.
O campeão da Libertadores de 1994 saiu justamente do grupo do Cruzeiro. O Vélez Sarsfield passou por Defensor-URU (oitavas), Minervén-VEN (quartas de final), Junior Barranquilla-COL (semifinal) e São Paulo (final).
A passagem do lateral-direito Paulo Roberto Costa pelo Cruzeiro ocorreu no início da década de 1990 (entre 1992 e 1993), uma das fases mais vitoriosas da história celeste.
Pelo clube celeste, conquistou Copa do Brasil (1993), Supercopa Libertadores (1991 e 1992) e um Campeonato Mineiro (1992).

O ex-ponta-esquerda defendeu o Cruzeiro de 1992 a 1997. Em 224 jogos, marcou 54 gols e celebrou 10 títulos. Carismático, Roberto Gaúcho ficou conhecido por fazer gols e dar assistências em compromissos decisivos pelo clube.
Roberto Gaúcho brilhou pelo Cruzeiro na década de 1990. Foram 56 gols em 221 jogos do então ponta-esquerda com a camisa celeste. Ele conquistou os títulos da Copa do Brasil (1993 e 1996), da Copa Ouro (1995), da Copa Libertadores (1997) e da Supercopa da Libertadores (1992), além de três estaduais (1992, 1994 e 1996).

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