Os bastidores da única vitória do Cruzeiro na Bombonera: ‘Quase viraram o ônibus’

Os bastidores da única vitória do Cruzeiro na Bombonera: ‘Quase viraram o ônibus’

5 minutos 19/05/2026
Os bastidores da única vitória do Cruzeiro na Bombonera: ‘Quase viraram o ônibus’
Os bastidores da única vitória do Cruzeiro na Bombonera: ‘Quase viraram o ônibus’ (Cruzeiro ganhou do Boca por 2 a 1, na Bombonera, na Libertadores de 1994)

A última vitória do Cruzeiro sobre o Boca Juniors-ARG na Bombonera não ficou marcada apenas pelos gols do lateral-direito Paulo Roberto Costa e do ponta-esquerda Roberto Gaúcho. O triunfo celeste por 2 a 1, em 1994, pela Copa Libertadores, também atravessou a história pela atmosfera hostil vivida pela delegação mineira em Buenos Aires.

Da dificuldade para treinar no estádio à chegada sob clima de guerra, passando pela pressão da torcida argentina e pelas constantes provocações em campo, os bastidores daquela noite seguem vivos na memória dos protagonistas.

À época, Cruzeiro e Boca dividiam a última colocação do Grupo 2 da Libertadores, ambos com apenas um ponto. O cenário aumentava ainda mais a tensão de um confronto cercado por rivalidade, pressão e intimidação.

Mais de 30 anos depois, os heróis da vitória ainda descrevem a Bombonera quase como um ambiente de sobrevivência.

Cruzeiro teve treino interrompido na Bombonera

A tensão começou antes mesmo da bola rolar. Na véspera da partida, Cruzeiro e Boca chegaram praticamente juntos para a atividade na Bombonera. O clube mineiro, porém, teve apenas 15 minutos liberados para treinar no estádio, sob a suposta justificativa de preservação do gramado.

Na ocasião, o técnico Ênio Andrade ironizou a situação ao perceber a movimentação dos argentinos nos arredores do gramado, e acertou quando “previu” que os argentinos treinariam ali pouco tempo depois.

“Daqui a pouco certamente o Boca vai treinar.”


Segundo Paulo Roberto Costa, capitão daquela equipe, o elenco precisou apostar na confiança e no equilíbrio emocional para suportar a pressão.

“Fomos com muita confiança. O lado psicológico foi muito importante”, relembrou o ex-lateral-direito.

‘Quase viraram o nosso ônibus’

A chegada ao estádio talvez tenha sido o momento mais tenso da noite. Roberto Gaúcho recorda que o ônibus celeste atravessou um verdadeiro corredor de pressão até alcançar a Bombonera.

“Para entrar na Bombonera foi uma guerra. Quase viraram o nosso ônibus.”

Paulo Roberto também descreveu o ambiente como extremamente hostil desde os minutos anteriores ao jogo.

“A chegada do ônibus na Bombonera foi muito difícil. Eu, como capitão, falava com os jogadores sobre entrarmos com 11 e terminarmos com 11.”

Segundo o ex-jogador, o Boca tentou a todo tempo transformar o confronto em um jogo emocionalmente desequilibrado para os brasileiros.

“Sempre que se joga contra os grandes argentinos há provocação e rivalidade. Se não estivermos preparados psicologicamente, eles sabem muito bem provocar e o brasileiro cai na provocação.”

Paulo Roberto ainda detalhou a estratégia argentina dentro de campo.

“O argentino entra preparado para provocar, virar de costas e sair andando. Fingem que vão te pedir desculpas e puxam o cabelo, sabem provocar.”

‘Parecia que estavam me pegando pelo cabelo’

Dentro de campo, o cenário não era mais fácil. Roberto Gaúcho relembra a pressão exercida pela torcida do Boca como algo “palpável”.

“A pressão, estádio lotado… eu ia bater escanteio ali e parecia que eles estavam me pegando pelo cabelo. É uma pressão muito grande, você tem que ter personalidade.”

O primeiro tempo foi amplamente dominado pelo Boca, que obrigou Dida a realizar grandes defesas para manter o Cruzeiro vivo na partida. Segundo Roberto Gaúcho, porém, o time celeste jamais deixou de acreditar.

“Tinha que ter muita personalidade, vontade. Isso não faltava para o nosso time.”

O ex-ponta ainda fez questão de lembrar a qualidade daquela equipe celeste, que tinha nomes como o atacante Ronaldo Fenômeno, o volante Douglas, o lateral-esquerdo Nonato e o próprio Dida.

“Todo time começa por um grande goleiro. Nosso time tinha muita qualidade, uma defesa sólida, um meio de campo compacto e um ataque fulminante.”

Os gols que silenciaram a Bombonera

Depois de suportar a pressão, o Cruzeiro encontrou forças para construir uma das vitórias mais emblemáticas de sua história na Libertadores.

Capitão da equipe, Paulo Roberto abriu o placar em cobrança de falta e guarda o lance entre os mais especiais da carreira.

“Foi um dos gols mais bonitos da minha carreira. É bom ouvir a narração do Brasil empolgada e a narração da Argentina triste, murcha.”

Já Roberto Gaúcho revive o segundo gol quase em câmera lenta, como se ainda estivesse em campo na Bombonera.

“O Ademir roubou a bola, tocou no Luiz Fernando e eu já entrei na diagonal entre os dois zagueiros. O Luiz Fernando enfiou essa bola, eu fui rápido, ágil e fuzilei o Navarro Montoya.”

Os lances de Boca 1 x 2 Cruzeiro na Libertadores de 1994

O time vencedor

A escalação do Cruzeiro na vitória por 2 a 1 sobre o Boca Juniors teve Dida; Paulo Roberto, Célio Lúcio, Luizinho e Nonato; Ademir, Douglas, Luiz Fernando e Macalé (Cleison); Ronaldo e Roberto Gaúcho. O técnico era Ênio Andrade.

As equipes integravam o Grupo 2 da Libertadores, considerado o “da morte” em razão de confrontar brasileiros e argentinos. Além de Cruzeiro e Boca, a chave tinha Palmeiras e Vélez Sarsfield.

A Raposa avançou em segundo lugar, abaixo do Vélez e acima do Palmeiras. O Boca segurou a lanterna. Nas oitavas de final, o Cruzeiro enfrentou a Unión Española e foi eliminado com derrota por 1 a 0, no Chile, e empate por 0 a 0, em BH.

O campeão da Libertadores de 1994 saiu justamente do grupo do Cruzeiro. O Vélez Sarsfield passou por Defensor-URU (oitavas), Minervén-VEN (quartas de final), Junior Barranquilla-COL (semifinal) e São Paulo (final).

Paulo Roberto Costa no Cruzeiro

A passagem do lateral-direito Paulo Roberto Costa pelo Cruzeiro ocorreu no início da década de 1990 (entre 1992 e 1993), uma das fases mais vitoriosas da história celeste.

Pelo clube celeste, conquistou Copa do Brasil (1993), Supercopa Libertadores (1991 e 1992) e um Campeonato Mineiro (1992).

Paulo Roberto e Ronaldo, em jogo do Cruzeiro - (foto: Jorge Gontijo/EM)

Paulo Roberto e Ronaldo, em jogo do Cruzeiro(foto: Jorge Gontijo/EM)

Roberto Gaúcho no Cruzeiro

O ex-ponta-esquerda defendeu o Cruzeiro de 1992 a 1997. Em 224 jogos, marcou 54 gols e celebrou 10 títulos. Carismático, Roberto Gaúcho ficou conhecido por fazer gols e dar assistências em compromissos decisivos pelo clube.

Roberto Gaúcho brilhou pelo Cruzeiro na década de 1990. Foram 56 gols em 221 jogos do então ponta-esquerda com a camisa celeste. Ele conquistou os títulos da Copa do Brasil (1993 e 1996), da Copa Ouro (1995), da Copa Libertadores (1997) e da Supercopa da Libertadores (1992), além de três estaduais (1992, 1994 e 1996).

Roberto Gaúcho em treino do Cruzeiro - (foto: Jorge Gontijo/EM/D.A Press)

Roberto Gaúcho em treino do Cruzeiro(foto: Jorge Gontijo/EM/D.A Press)

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