Peter Grieve explica por que não comprou SAF do Atlético: ‘Acordo errado’

Peter Grieve explica por que não comprou SAF do Atlético: ‘Acordo errado’

6 minutos 12/06/2026
Peter Grieve explica por que não comprou SAF do Atlético: ‘Acordo errado’
Peter Grieve explica por que não comprou SAF do Atlético: ‘Acordo errado’ (Peter Grieve, empresário que negociou compra de parte da SAF do Atlético)

O empresário estadunidense Peter Grieve chegou perto de acertar a compra de parte da Sociedade Anônima Futebolística do Atlético em 2023. Copoprietário do Bantu Rover, de Zimbábue, e presidente da Football Co, ele enfim quebrou o silêncio sobre os motivos que o fizeram não se tornar sócio de Rubens Menin, Rafael Menin, Ricardo Guimarães e Renato Salvador – os “4 Rs”.

“Nosso diretor tinha quase negociado um acordo. O engraçado é que, para passar para a próxima fase e sermos considerados na fase final, tínhamos de colocar um número na mesa. Quanto vale o clube? Como saberíamos quanto o clube valia? Como eu sou muito pragmático, disse: ‘Tem muita dívida no clube. Eu duvido que tenha algum patrimônio líquido’. Então, vamos assumir que o clube tem que valer o valor da dívida ou estará tecnicamente falido”, iniciou o norte-americano, em entrevista ao Canal do Frossard.

“Propusemos um número baseado no número da dívida. Os banqueiros aceitaram isso como uma oferta. Então, fomos ao Brasil para assinar o acordo. Mas, conforme nos aproximávamos, percebemos: não era um acordo justo. Era uma loucura. Uma loucura. E não incluía o estádio.”

Peter Grieve, empresário estadunidense

Além do alto débito alvinegro, outro motivo para que não houvesse o acordo era que a Arena MRV não seria incluída no trato: “Ficamos lá por três ou quatro dias e, no último, encontramos os 4Rs. Na conclusão, eu disse: ‘Nós vimos o estádio ontem. A boa notícia é que amamos. A má notícia é que amamos (risos)’. Porque o estádio deveria fazer parte do negócio. Qualquer clube deveria ter o direito de ter o próprio estádio”.

Grieve ‘isentou’ Menins

Peter Grieve disse que Rubens Menin e Rafael Menin concordaram com a ideia de incluir o estádio no negócio. O estadunidense explicou que ao vir para o Brasil, assinou acordo não-vinculante e seguiu negociando com os empresários um trato melhor para a compra da SAF, mas ao fim as partes não chegaram a um consenso.

“E Rubens Menin, justiça seja feita, disse: ‘Eu concordo com isso’. Eu disse: ‘Ok, viemos aqui para assinar esse acordo. Eu não gosto desse acordo. É um acordo errado. Mas nós vamos assiná-lo, porque eu falei que iríamos. É um acordo não-vinculante, nós podemos mudar isso. Vamos passar os próximos meses negociando o acordo correto, que inclua o estádio’. Todo mundo concordou, e nós assinamos. Passamos os quatro a seis meses seguintes vendo diferentes formas de fazer tudo dar certo”, continuou.

Por que não deu certo?

Peter Grieve explicou que outros participantes da negociação não concordaram com as condições dele: “A resposta simples é: eu não acho que o mercado estava pronto para isso. E o mercado é algo complexo, com muitos participantes diferentes. Eu não vou colocar culpa em ninguém. Não vai ajudar nada fazer isso. (…) Acho que isso pode ter sido o que aconteceu aqui. Alguns participantes não estavam prontos para isso. E eu acho que o meu método particular de negociação não era o esperado por algumas das partes”.

“E digo isso porque não gosto de negociação posicional, onde é um jogo de soma zero entre mim e você, onde para eu vencer você precisa perder. Não acho que isso funcione, especialmente quando se está entrando em uma associação onde vocês serão parceiros. Se eu tirar vantagem de você, você não vai gostar nem confiar em mim. E se você tirar vantagem de mim, você não vai me respeitar. Então não é uma boa estrutura”, continuou.

“O que tínhamos estabelecido durante a negociação é que todas as partes estavam realmente no mesmo lado da mesa. Éramos nós, a associação, os 4Rs, EY, conselheiros e banqueiros. E todos abordamos a situação com a perspectiva de: ‘Nós precisamos fazer isso. Estamos indo para o mesmo lugar. Vamos fazer juntos como um time e conseguir um acordo justo onde todos consigam o que precisam’. Isso foi o que queríamos fazer. E estava funcionando! No fim das contas, não aconteceu. Mas eu vou dizer: não foi por culpa dos Menin.”

Peter Grieve, empresário estadunidense

Empresário rasgou elogios ao Atlético

Peter Grieve admitiu ter se encantado pela torcida do Atlético e pelo CEO do clube à época, Bruno Muzzi – que foi substituído por Pedro Daniel neste ano.

“As pessoas, a torcida, o ambiente. As pessoas do clube. Bruno Muzzi. Um profissional de altíssimo nível. Altíssimo nível. Eu trabalharia com ele num piscar de olhos, em qualquer função. Conheci os Menin através dele. Tive ótima impressão deles. Os torcedores… Os torcedores. A torcida de vocês é lendária. Impressionantemente apaixonada. No time em que eu jogo lá na minha terra, nosso goleiro é de Belo Horizonte e é um cara muito Galo!”

Peter Grieve, empresário estadunidense

“Então eu entendo perfeitamente. Eu acredito que, às vezes, quando falamos de donos e aquisição de clubes, algo está sendo perdido nessa conversa. Nós podemos ser os donos financeiros de um clube, mas não se engane: os torcedores são os donos espirituais. Se você não tem os torcedores, você não tem um clube. Eles são os donos espirituais. Eles são os parceiros em qualquer clube. E a torcida do Galo é fantástica. E você olha para o estádio, com as cores, é sensacional”, finalizou.

Quem é Peter Grieve?

Peter iniciou a carreira no Goldman Sachs, renomada instituição financeira multinacional sediada em Nova Iorque. Foram 25 anos na empresa até que, em 2009, deixou o cargo de diretor para ajudar a fundar a Cordia Bancorp Inc., grupo para adquirir e recuperar bancos falidos.

No mesmo período, Grieve começou a diversificar os investimentos e as áreas de interesse. Aventurou-se pela indústria de tecnologia e, é claro, pelo futebol. Em 2008, passou a integrar o quadro de diretores do Grassroot Soccer, organização que busca conscientizar jovens africanos sobre o HIV.

Em 2009, investiu no processo de fundação o Bantu Rovers, clube profissional de Zimbábue do qual é coproprietário até hoje. O time chegou à Primeira Divisão, mas não passou do nono lugar. Foi rebaixado em 2017 e ainda não voltou à elite local.

Entre 2017 e 2019, Grieve também integrou o grupo de donos do Europa Point, time de Gibraltar. Mais uma vez, não teve grande destaque. A equipe jogou uma edição da Primeira Divisão no período e ficou em 10º, com somente 12 clubes em disputa.

Em 2016, tentou dar o passo mais ousado da carreira e esteve muito perto de adquirir o Hull City, time que à época subiu para a Premier League. Segundo a imprensa inglesa, o acordo com a família Allam, que detinha o clube à época, estava apalavrado.

Porém, uma série de desavenças fez o negócio ser desfeito. CEO do Hull City na época, Nick Thompson contou ao The Athletic que os então donos do clube subiram o preço seguidas vezes, de forma repentina. 

Grieve teria aceitado os novos valores e marcado um encontro num hotel em Londres para assinar o contrato, mas Ehab Allam não apareceu. O Hull City negou que isso tenha ocorrido.

Grupo bilionário

Depois das três experiências no futebol, Peter Grieve decidiu dobrar a aposta. Fundou a The Football Co. e foi em diferentes continentes buscar investidores com interesse em adquirir equipes pelo mundo num formato chamado de “MCO” (Multi-club ownership), em que um grupo detém vários clubes.

Grieve é o acionista fundador, integrante do comitê de administração e presidente da empresa. De acordo com ele, os investimentos iniciais do The Football Co. serão de 1 bilhão de dólares (R$ 5,16 bilhões da cotação atual).

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