Início » Real Madrid? Cruzeiro foi convidado de honra na Escócia, rival do Brasil na Copa


Miami – Não são tantas as conexões diretas entre o futebol mineiro e a Escócia, adversária do Brasil na Copa do Mundo. Há uma, porém, que está cravada na história de um dos clubes mais tradicionais da Europa: o Celtic, campeão a Champions League em 1967. Saiu de Minas Gerais, mais precisamente de Belo Horizonte, o adversário da equipe escocesa na comemoração pelo centenário.
Em 7 de agosto de 1988, o Cruzeiro entrou em campo contra os aniversariantes de 6 de novembro. No lendário Celtic Park, em Glasgow, 41.659 pessoas viram de perto o triunfo dos donos da casa por 4 a 2 – resultado que valeu um troféu, exposto até hoje na recheada galeria escocesa. Mas a festa se tornou jogo com entradas ríspidas, como retrataram os jornais da época.
“É um crime o que o Andrews fez com o Careca”, reclamou o técnico interino do Cruzeiro na época, Antônio Lacerda. A declaração foi publicada em edição do Estado de Minas, que classificou o Celtic como um time “forte e violento”. O lance a que o então técnico se referia foi uma chegada fora da área do goleiro do clube escocês na canela direita do atacante cruzeirense, que se lesionou logo no início do jogo e teve de voltar ao Brasil antes dos companheiros para se tratar.
Não se sabe exatamente por que a equipe mineira foi a convidada para o amistoso comemorativo – nos jornais escoceses, falava-se da possibilidade de Real Madrid ou Internazionale serem os rivais. Na época, o Cruzeiro estava em excursão por países europeus. Antes de encarar o Celtic, já tinha acumulado derrotas por 2 a 1 para Everton, da Inglaterra, e Young Boys, da Suíça.
O Cruzeiro vivia, de certo modo, um momento atribulado. A equipe vinha de dois vices, no Campeonato Mineiro, para o arquirrival Atlético, e da Supercopa Libertadores, para o Racing, da Argentina.
“Nós tínhamos ido em 1986 para a Europa, com Jair Bala de treinador. Foi quando eu fui contratado. Era muito normal ir a esses ‘Torneios de Verão’ da Europa nas décadas de 1970 e 1980, e fazia tempo que o Cruzeiro não ia. Em 1986, comigo já no time, o Cruzeiro foi e jogamos contra o Barcelona até, em um jogo muito bom. Nas nossas últimas partidas na excursão, vencemos o Atlético de Madrid e o Osasuña. Isso pode ter ajudado a deixar uma boa impressão. Pode ter sido a partir desses jogos de 1986 que fomos convidados depois. Era muito normal essas excursões em agosto”, disse o goleiro celeste na época, Wellington Fajardo, em entrevista ao Superesportes em 2018.
“O Cruzeiro sabia que estava diante do adversário mais dificil até agora na excursão. O Celtic, campeão escocês, tem uma equipe fortissima, de jogo rápido e às vezes violento. E logo nos primeiros minutos notou-se claramente que o time utilizaria mais os
mentos pelo alto”, lê-se na crônica da partida, publicada pelo EM.
Em campo, o que se viu, segundo os relatos da época, foi um Celtic mais efetivo. No segundo tempo, a Raposa esboçou uma reação, mas não foi suficiente. Os donos da casa comemoraram a vitória, com um hat-trick do atacante Andy Walker e um gol de Aveny. Hamilton, de pênalti, marcou duas vezes para o Cruzeiro.
Mas o que ficou na memória do ex-lateral-direito Balu, titular do Cruzeiro na partida, não foi o que ocorreu durante os 90 minutos. “Eu não lembro muito desse jogo, os detalhes. Agora, um que marcou e que até hoje, quando nós nos encontramos e nos falamos, foi a chegada das duas delegações no estádio”, iniciou ao No Ataque.
“Nós já estávamos no meio da excursão, brasileiro… chegamos no estádio de bermudinha, uns de tênis, outros de chinelo. Chegamos juntos, as duas delegações. Descemos do ônibus no nosso estilo brasileiro. Meu irmão, os caras desceram todos de terno, alinhadinhos. A gente comentou: ‘dá até vergonha’. A gente não estava acostumado. Foi uma festa linda”, relembra.
“O Cruzeiro foi bem recepcionado, como sempre. O Celtic nos assustou pelo perfil dos caras, muito altos, fortes. Foi um jogo bom. Perdemos o jogo, o time dos caras era muito bom. Mas saímos do estádio felizes, o pessoal falando bem da nossa equipe também, do futebol brasileiro, do Cruzeiro. Temos boas lembranças desse jogo”, completou.

Depois da partida, o Cruzeiro seguiu a excursão na Europa. Enfrentou Hearts (derrota por 2 a 1) e Leeds United (vitória por 1 a 0), na Escócia; Recreativo de Huelva (3 a 3) e Real Zaragoza (vitória por 1 a 0), na Espanha; e Reggiana (1 a 1), na Itália. O saldo da viagem teve oito jogos, com duas vitórias, dois empates e quatro derrotas, 11 gols marcados e 14 sofridos.
Nas partidas finais, a equipe atuou sem dois nomes importantes: Careca, que retornou ao Brasil por conta da lesão, e Ademir. O motivo? Saudade demais.
“Estou sem condições de jogar normalmente. Tenho saudades demais de casa”, declarou o volante, que foi liberado para voltar mais cedo a BH e passar um tempo com a familia antes de defender o Brasil nos Jogos Olímpicos de Seul, na Coreia do Sul, dias depois.

Quase 40 anos depois daquele jogo, brasileiros e escoceses se encontram novamente. Agora, com as respectivas seleções, que se enfrentam pela terceira rodada do Grupo C da Copa do Mundo de 2026. A bola rola às 19h (de Brasília) desta quarta-feira (24/6), no Hard Rock Stadium, em Miami, nos Estados Unidos.
O Cruzeiro não terá nenhum representante no duelo – os atletas com mais ligação com o clube são o volante Éderson e o centroavante Igor Thiago, formados na Toca da Raposa. Por sua vez, o Celtic conta com dois atletas na Seleção Escocesa: os zagueiros Anthony Ralston e Kieran Tierney.
Celtic: Ian Andrews; Chris Morris, Anton Rogan, Roy Aitken (Lex Baillie) e Mick McCarthy; Peter Grant (Owen Archdeacon), Paul McStay e Tommy Burns; Joe Miller (Billy Stark), Frank McAvennie (Charlie Christie) e Andy Walker (Mark McGhee). Técnico: Billy McNeill.
Cruzeiro: Wellington; Balu, Gilmar Francisco, Vilmar e Wladimir; Ademir (Éder), Édson Souza e Heriberto (Genilson); Careca (Fabiano), Hamilton (Agnaldo) e Robson (Ramon). Técnico: Antônio Lacerda.
Motivo: Partida comemorativa pelo centenário do Celtic
Data: 7 de agosto de 1988
Local: Celtic Park, em Glasgow, na Escócia
Gols: Andy Walker, aos 10’ e 28’ do 1ºT, e aos 25’ do 2ºT, e Franck McAvennie, aos 13’ do 1ºT (Celtic); Hamilton, aos 26’ e aos 34’ do 1ºT (Cruzeiro)
Cartões Amarelos: Ademir, Gilmar Francisco e Hamilton (Cruzeiro)
Cartão Vermelho: Gilmar Francisco (Cruzeiro)
Público: 41.659 torcedores
Árbitro: David Syme (Escócia)
A notícia Real Madrid? Cruzeiro foi convidado de honra na Escócia, rival do Brasil na Copa foi publicada primeiro no No Ataque por João Vítor Marques – Enviado aos EUA

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