‘Se fosse assim antigamente, estava todo mundo milionário’: ídolo do Cruzeiro relembra simplicidade e glória de 1966

‘Se fosse assim antigamente, estava todo mundo milionário’: ídolo do Cruzeiro relembra simplicidade e glória de 1966

4 minutos 28/06/2026
‘Se fosse assim antigamente, estava todo mundo milionário’: ídolo do Cruzeiro relembra simplicidade e glória de 1966
‘Se fosse assim antigamente, estava todo mundo milionário’: ídolo do Cruzeiro relembra simplicidade e glória de 1966 (Natal, Tostão e Dirceu Lopes: ídolos do Cruzeiro no Mineirão)

Aos 80 anos e com o vigor de quem ainda parece pronto para arrancar pela ponta-direita, Natal, o eterno “Diabo Louro” do Cruzeiro, mergulhou em suas memórias para descrever um futebol que não existe mais.

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Entre sorrisos e nostalgia no programa Concentração, o ex-jogador traçou um paralelo entre as cifras astronômicas do esporte na atualidade e a realidade do time campeão da Taça Brasil de 1966, considerado por muitos a melhor equipe da história do Cruzeiro. Natal destaca que a diferença financeira é gritante. “Se fosse assim antigamente, estava todo mundo milionário”, brincou.

Diferentemente do cenário atual, onde jogadores contam com staffs e agentes, Natal recorda que as negociações na Toca da Raposa eram feitas olho no olho, diretamente com a diretoria. Não havia intermediários para barganhar valores, e a simplicidade ditava o tom das renovações.

“Nossos salários eram simples. Você ia fazer um contrato, chegava lá e o presidente falava assim: ‘O que eu posso te pagar é 5 por mês’. Eu falava: ‘Não, paga pelo menos seis’. ‘Se você quiser cinco, venha. Se não quiser, vou pagar 5,5’. Aí a gente aceitava.”

Natal, ex-jogador e ídolo do Cruzeiro

Mesmo sem os luxos modernos, Natal enfatiza que aquele grupo era uma verdadeira seleção disfarçada de clube. “Esse timaço… é uma Seleção Brasileira, não é não? Ou mais! Não vai ter outro [Cruzeiro] assim nunca, com todo o respeito que eu tenho aos jogadores de hoje”, salientou.

Pelé contra o Cruzeiro na final da Taça Brasil de 1966 - (foto: Reprodução/Euler Junior/EM/D.A Press - Reprodução de foto do Jornal Estado de Minas)

Pelé encarou o Cruzeiro de Natal, Tostão, Evaldo, Dirceu Lopes, Piazza, Procópio e cia, no Mineirão(foto: Reprodução/Euler Junior/EM/D.A Press – Reprodução de foto do Jornal Estado de Minas)

Futebol raiz: tesoura, esparadrapo e falta de material

A glória conquistada sobre o Santos de Pelé na Taça Brasil de 1966 esconde bastidores de uma precariedade material que hoje seria impensável. Natal descreve com riqueza de detalhes como a falta de uniformes reserva exigia improvisações heroicas, especialmente sob o clima adverso.

“Material não tínhamos. O jogo contra o Santos lá que nós ganhamos por 3 a 2, no Pacaembu, não tinha material para trocar no segundo tempo. Não tínhamos. Se rasgasse uma camisa ou um calção ali, o bicho pegava. Estava jogando de branco, botava uma camisa azul e aí misturava tudo. Não tinha outro material”

O ídolo conta uma história impagável sobre o jogo decisivo, quando a chuva transformou o uniforme em um obstáculo extra.
“Choveu muito e aquelas meias de 1900 e Kafunga, como diz o outro… Eu botei a meia e a meia veio quase no meu pescoço. Eu tive que pegar uma tesoura, cortar, pegar um esparadrapo e botar na perna para poder jogar, para terminar”, relembrou.

Cruzeiro de 1966 - (foto: Arquivo O Cruzeiro/EM)

Jogadores do Cruzeiro antes do primeiro jogo contra o Santos, na final da Taça Brasil, no Mineirão (De pé: Neco, Pedro Paulo, William, Procópio, Piazza e Raul – Agachados: Natal, Tostão, Evaldo, Dirceu Lopes e Hilton)(foto: Arquivo O Cruzeiro/EM)

A união de um grupo ‘sensacional’

Apesar das dificuldades e dos salários modestos, o que mantinha aquele Cruzeiro no topo era a química entre os atletas. Natal destaca que a amizade e o respeito mútuo eram os pilares daquele elenco que contava com nomes como Raul, Piazza, Dirceu Lopes, Evaldo e Tostão.

“O grupo era maravilhoso. A diretoria não tem nada a reclamar porque não tinha a condição que tem hoje. O grupo era sensacional, viu? Sensacional. A gente errava um passe, ‘tá certo’, ‘tá beleza’… Isso motiva, porque não adianta ficar brigando, ficar reclamando do companheiro que está do seu lado. Tem que motivar, tem que incentivar, tem que dar força”, disse.

Para o “Diabo Louro”, o futebol raiz era definido por essa entrega e pelo orgulho de vestir a camisa do Cruzeiro, independentemente de bônus ou patrocínios: “Tinha que honrar a camisa.”

Natal encerrou a entrevista reforçando que, embora não tenha ficado milionário com o futebol, a riqueza das lembranças e o carinho da torcida são seu maior patrimônio. “Eu não fiz nada demais. Fiz o bem para a torcida, fiz bem para o clube e graças a Deus vamos levando”, concluiu.

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